Bem Vindo ao Blog do Pêga!

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Existe muita literatura sobre cavalos, mas poucos escrevem sobre jumentos e muares. Este é um espaço para postar artigos, informações e fotos sobre esses fantásticos animais. Estamos sempre a procura de novo material, ajude a transformar este blog na maior enciclopédia de jumentos e muares da história! Caso alguém queira colaborar com histórias, artigos, fotos, informações, etc ... entre em contato conosco: fazendasnoca@uol.com.br

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Os Tropeiros na Rota da Moda

 

1 PANORAMA HISTÓRICO

O tropeirismo é uma atividade que surgiu há quase 300 anos. No fim do século XVII, a atual região de Minas gerais recebeu um contingente considerável de paulistas e escravos, os quais foram em busca do ouro.

Como o principal desejo desses imigrantes era a exploração das pedras preciosas, a terra para o cultivo foi deixada de lado, o que desencadeou uma crise de fome e miséria na região, tal crise afligiu a zona mineradora por longos períodos, interrompendo os trabalhos extrativistas.

Uma solução viável foi transportar para Minas Gerais, gado, para suprir as necessidades locais. No século XVIII, portanto, o tropeirismo passou a assumir uma importância fundamental no transporte de animais vindos do Rio grande do Sul com destino a Minas Gerais.

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Foto 1. Tropeiros caminhando

Era um sistema de transporte de capital de grande importância para o desenvolvimento econômico e social do Centro Sul (São Paulo), do Centro Oeste (Minas Gerais) e do Extremo Oeste (Mato Grosso).

Tinha como finalidade carregar riquezas para orla marítima, (a principio produtos minerais e depois produtos agrícolas) e refluir transportando o que fosse necessário as pequenas cidades interiorizadas.

Essa movimentação era bastante longa e precária, o que desencadeou a criação de novas rotas para facilitar o trajeto. Essas rotas ficaram conhecidas como caminhos do tropeiro.

O Paraná desde as primeiras décadas da chegada dos portugueses, foi “uma grande ponte”: passagem de castelhanos para o Atlântico; caminho dos escravizadores e indígenas; invernada de tropas vindas do Rio Grande para as Minas Gerais e, posteriormente, para os cafezais paulistas; ponto estratégico para o controle do Sul do Brasil pela Coroa.

A comunicação dos campos gerais paranaenses com São Paulo é bastante antiga; porém, somente no século XVIII é que vai definir-se a denominada Estrada Da Mata. Era na realidade um caminho, ou simplesmente uma picada, que comunicava os campos do Rio Grande do Sul desde Viamão até a tradicional feira paulista de Sorocaba em São Paulo.

Seu trânsito tinha como objetivo o abastecimento da região de mineração no atual Estado de Minas Gerais.

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Foto 2. Mapa da divisão territorial do trabalho do tropeirismo.

Os tropeiros partiam dos campos gaúchos logo que terminava o inverno, viajavam lentamente e procuravam acampar onde houvesse abundancia de pastos e água. Em fins de março as tropas já se encontravam em Sorocaba, onde ficavam instalados até a época da feira.

Sendo a viagem do Rio Grande até Sorocaba muito longa, faziam-se necessárias algumas paradas, tempo preciso para os animais descansarem; outro fator determinante para longas paradas era o clima frio e chuvoso do Sul, geava muito, os rios alagavam, obrigando os tropeiros a permanecerem acampados por vários dias seguidos.

O Paraná que por séculos foi apenas lugar de passagem e povoamento litorâneo, vê ampliada rapidamente a ocupação do seu território.

No aspecto político, esse é o século da conquista e colonização militar.

No aspecto econômico, multiplicam-se as invernadas e cresce o comércio de gado em função de o Paraná ter no primeiro planalto e, principalmente, no segundo, imensas pradarias que, embora seus pastos fossem de baixa qualidade, eram adequados a invernar o gado vindo do Sul em direção as Gerais.

Aqui paulistas adquiriram grandes extensões de terra, tanto para invernar o gado que compravam no Rio Grande, como para criar. Muitos “fazendeiros de cidade” raramente apareciam em suas fazendas, deixando-as por conta de hábeis capatazes e peões, não sendo raras as fazenda geridas por escravos.

Com a decadência da mineração, que se dá após o auge ocorrido entre 1750 e 1820, o café passa a ser a atividade econômica principal. As tropas de boi que iam para alimentação das minas e as de burros e cavalos, para transporte, passam a se dirigir a São Paulo como principal mercado consumidor.

Sorocaba foi Grande feira de animais e manufaturados. São Paulo, no século XIX está em processo de crescimento econômico e populacional que acentua gradativamente a partir da segunda metade do século. Recebe animais das províncias do Sul, escravos dos Estados em torno a ele e grandes levas de imigrantes.

O desenvolvimento da cafeicultura atinge as excelentes terras do segundo planalto paranaense que se abrem como mercado para as tropas de animais criados no Paraná e no Rio Grande. Grande parte da historia do segundo planalto pode se resumir a uma palavra: gado. Nele estão as cidades de Castro, Ponta Grossa, Tibagi, Piraí do Sul, entre outras, que são pontos marcantes dos caminhos das tropas.

Em suma, o Paraná tropeiro – comerciante e criador – tem as seguintes fases no trabalho com tropas: bois e mulas para Minas Gerais no século XVIII; para São Paulo cafeeiro no século XIX e primeiras décadas do XX e para o norte do Paraná como extensão da cafeicultura paulista; e, por ultimo, os tropeiros que se punham a serviços dos frigoríficos. Paralelo a essa economia, conformou-se um modo de vida de toda uma sociedade.

O tropeiro deixou marcas importantes na cultura. Marcas essas que ainda encontramos nos costumes, na alimentação, na arquitetura e no modo de vestir. Nas regiões onde os tropeiros atuaram com mais freqüências ainda existem expressões que são utilizadas atualmente tais como: Reinar – que quer dizer quando uma pessoa esta mal-humorada, Berrante, instrumento de chifre de boi, usado para controlar animais como o próprio boi, e vários outros.

2 O TERMO “TROPA” E AS FUNÇÕES DO TROPEIRISMO

Tropeirismo é o termo designado à atividade exercida pelos tropeiros, que se constituía a grosso modo de por em marcha grupos de animais e conduzi-los de um local à outro.

“Tropa é um termo bastante antigo, tanto na língua castelhana quanto no português; porém, a sua associação a uma porção de animais agrupados e postos em marcha por grupos de homens substantivadas de ‘troperos’ – signo de uma profissão, de uma ocupação – nasceu nas bandas do Prata. (TRINDADE, 1992).

Segundo Trindade (1992), o “tropero” nasceu do comércio de muares nas áreas meridionais da América do Sul. Aqui no Brasil, mais especificamente, eles surgiram a partir de 1732, quando os colonos portugueses passaram a levar tropas de animais dos campos do sul à Sorocaba, SP. O termo “tropero” (tropeiro em português), bastante usado nas vacarias do Uruguai, passou a ser usado para designar aqueles que tinham habilidade para escolher homens e animais, negociar preços, formar uma equipe capaz de lidar com as boiadas, cavalhadas e muladas e, ainda, enfrentar perigosas e demoradas marchas pelo Caminho do Sul, partindo dos Campos do Viamão em direção norte. O tropeiro era o personagem central do tropeirismo e sua atividade estava diretamente ligada ao animal, sua locomoção e à integração do sul do Brasil às demais regiões. Os tropeiros andavam em grupos e tinham como função realizar o fornecimento ajustado entre criadores e negociantes, transportando manadas de gado vacum, cavalar e muar do lugar de criação para o lugar de consumo, de venda ou para portos.

No geral, podiam ser chamados de tropeiros aqueles homens que estavam de alguma forma envolvidos na condução, tratamento e costeio de uma tropa.

3 O SISTEMA DE PRODUÇÃO E A ORGANIZAÇÃO DAS TROPAS

Straforini (2001) explica que o sistema de produção como um todo funcionava com divisão territorial do trabalho, sendo que o sul do país se encarregava da parte de criação. Os gaúchos criavam os animais, os paranaenses alugavam os campos para invernadas e os paulistas comercializavam nas feiras em Sorocaba, a partir das quais esses animais eram distribuídos para as outras regiões articuladas na economia mercantil colonial.

Segundo Straforini (2001), os grupos de tropeiros eram organizados de forma que cada homem tinha uma função específica dentro do grupo. Os cargos mais comuns eram os de condutor, camarada, cozinheiro e aprendiz, que junto com os escravos formavam o elemento humano das tropas. O condutor conhecia bem os caminhos e tinham como função conduzir a tropa. O camarada era ligado aos donos das mercadorias e aos fazendeiros e era encarregado de supervisionar os escravos envolvidos na caravana. O cozinheiro preparava as refeições para toda tropa. O aprendiz acompanhava a caravana para aprender sua futura profissão. Estes quatro cargos eram essenciais dentro de todas as tropas, porém pouco remunerados.

Trindade (1992) define o dono de tropa ou o tropeiro, propriamente dito, como o dono do negócio, o chefe. Sendo o dono ele não participava das caravanas, permanecendo em sua cidade para cuidar da contratação dos camaradas, cozinheiros e aprendizes, além da administração geral do negócio e tomar as decisões. Ele podia não ser o único dono, mas tinha algum capital empregado na atividade.

4 A VIDA DO TROPEIRO E SEUS COSTUMES

Conforme Trindade (1992), tropear além de uma atividade econômica, era um estilo de vida. Tropear era um trabalho duro que exigia muito esforço dos envolvidos, e dava pouco retorno financeiro. O estilo de vida dos tropeiros que tropeavam era rústico, arriscado e isolado. Eles viajavam por meses enfrentando as mais diversas dificuldades: trajetos perigosos, caminhos acidentados, ataques de feras ou guerreiros indígenas, a rusticidade dos pousos noturnos, o cansaço físico, a comida precária, entre outras.

Segundo Straforini (2001), devido às condições difíceis das viagens, o cardápio dos tropeiros era bem limitado. Priorizavam-se os ingredientes mais baratos que davam maior sustância. Uma refeição tropeira podia incluir: carne seca, feijão, angu de milho, farinha de mandioca, torresmo e café com açúcar. O sal não era usado devido ao seu preço alto. Um dos pratos mais populares era o feijão tropeiro, que até hoje é muito apreciado em restaurantes típicos.

“A alimentação dos tropeiros era constituída por toucinho, feijão preto, farinha, pimenta-do-reino, café, fubá e coité (um molho de vinagre com fruto cáustico espremido). Nos pousos comiam feijão quase sem molho com pedaços de carne de sol e toucinho (feijão tropeiro) que era servido com farofa e couve picada. Bebidas alcoólicas só eram permitidas em ocasiões especiais: quando nos dias muitos frios tomavam um pouco de cachaça para evitar constipação e como remédio para picada de insetos.” (RECCO, 2006)

Straforini (2001) comenta que a vestimenta era muito importante para os tropeiros, pois além de ela servir como proteção física, era usada para acentuar a hierarquia existente dentre eles. Os donos de tropa se trajavam com tecidos rústicos e resistentes, chapéu de feltro, botas de couro flexível até a altura das coxas e mantas de baeta sobre os ombros. Já sobre a vestimenta dos outros membros não se têm muitos dados, sabe-se que ela seguia o estilo rústico da dos donos de tropas, mas era bem mais simples, sem o uso de botas e chapéus, por exemplo. De acordo com Tropeiros de Trindade (1992), sabe-se que o material usado era um algodão grosseiro tecido em Sorocaba. Os índios e negros envolvidos usavam muito ponchos grosseiros, brancos com riscas pretas ou pardas, feitos de lã de carneiro por mulheres do povoado de Mostardas no Rio Grande.

Trindade (1992), diz que a veste também variava de acordo com a região. Os homens de São Paulo, ao sudeste do Brasil que passavam boa parte de seu tempo sobre a montaria, usavam muito o poncho vasto, que cobria também parte do animal. O poncho alastrou-se rapidamente para região do Brasil central, pois era uma peça de roupa que além de proteger do frio e da chuva, servia de abrigo do sono ou barraca improvisada e ainda de proteção para as armas levadas em baixo do poncho. O poncho às vezes era substituído pela pala. Os sulistas usavam ainda chapelão de feltro, de copa baixa, abas largas e flexíveis ou às vezes chapéus de copa alta e abas curtas, à maneira do campeiro argentino. Uma camisa feita de algodão com um colete ou jaleco em cima, a ceroula folgada de algodão, algumas com as bainhas em crivo ou franjas, frequentemente acompanhado de uma calça em cima, Na cintura, uma faixa de pano colorido ou a guaiaca de couro. Por último completando o traje mais comum do tropeiro, as botas de cano muito longo, muitas vezes dobrado, com enormes esporas atadas a elas ou presas por tiras de couro aos pés nus do cavaleiro.

“A veste do gaúcho peão que passava muito tempo do seu dia a cavalo, era compleada pelo chiripá, um pedaço de baeta passado por entre as pernas e amarrado ao redor do corpo, da cintura para baixo, à maneira saiote, formando no trepasse amplos bolsos onde o cavaleiro carregava pedaçoas de fumo. Esse pano era preso pelo tirador (espécie de couro curtido e sovado) e por um cinturão também de couro e, segundo José Cezimbra Jacques em “Assuntos do Rio Grande do Sul”, “com bolsos e solapa abotoadas e efeitadas com moedas de prata ou ouro, que denominavam de guaiacas”. O chiripá dava ampla liberdade de movimentos ao homem campeiro e o protegia do frio.

No final do seculo XIX, o chiripá foi basicamente substiutido pelas amplas bombachas de pano, um misto de calças de padrão citadino com a tradicional calça larga, presa um pouco de abaixo do joelho, de origem espanhola (norte da espanha) e bastante difundida no Uruguai. Defendendo as tradições o escritor José Jacques chamou a bombacha de `assassina do chiripá´. “(TRINDADE, 1992)”.

Trindade (1992) explica ainda que para montar nas mulas era utilizado o “lombinho completo” ou arreio. Os arreios ou lombinhos eram compostos de várias peças (as chargas, mantas e cinjas, tudo ajustado sobre o lombo do animal) e essas peças serviam ao viajante para formar uma espécie de cama. No mais eram utilizadas bruacas de couro (caixas de couro) sobre as cangalhas das mulas cargueiras, onde iam mantimentos e utensílios de cozinha.

5 OS TROPEIROS E A ECONOMIA

“Sim, porque, sem o muar platino ou gaúcho, não teríamos tido esse motins econômicos, isto é, não teríamos tido toda a economia central brasileira, e não teria sido possível o Brasil”. A frase do autor Alfredo Ellis Júnior, em 1999, pode soar um tanto pretensiosa, mas expressa claramente toda a importância da atividade tropeirista na formação econômica do Brasil colonial.

A atividade dos tropeiros possibilitou o comércio entre as colônias mais desenvolvidas, os povoados mais inóspitos e o escoamento das mercadorias exportadas da Europa, que chegavam principalmente aos portos de Santos em São Paulo e ao litoral do Rio de Janeiro. Pode parecer impossível que estes carregamentos fossem transportados pelos muares, mas nos relatos da época existiam tropas de quarenta animais, multiplicando isso pela infinidade de tropas, pode se chegar a um número suficientemente capaz de transportar tais quantidades.

O tropeirismo contribui para a intercambialidade do comércio no Brasil como um todo, mas principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O que seria do comércio se o café produzido em determinado local e em grandes quantidades ficasse reservado a subsistência? Provavelmente teríamos até hoje uma economia primária.

Zamela, apud Goulart (1961), divide os gêneros transportados em cinco grupos:

  1. Gêneros essenciais à subsistência, tais como: os cereais, a carne, o sal, o açúcar, o toucinho. Destaque para a carne e o sal.
  2. Utilidades indispensáveis ao trabalho nas minas: os utensílios de ferro e aço, a pólvora e as armas com o que o minerador defendia sua data aurífera e que garantiam a continuidade de seu trabalho; o escravo que executava a extração do ouro e do diamante e que, sendo objeto de compra e venda, era também uma mercadoria que podemos colocar dentro deste grupo.
  3. Artigos para vestimenta e calçado dos habitantes das Gerais, os utensílios e móveis para a casa, arreios para animais, cavalgaduras, etc.
  4. Artigos de luxo, as coisas supérfluas e caras, porém muito consumidas por essa sociedade de novos-ricos que se constituiu nas Gerais.
  5. Pinga e tabaco podem parecer supérfluos, mas eram de vital importância para os mineradores.

Toda a ação dos tropeiros e a subseqüente evolução da economia brasileira não seria possível se não fosse a confiança delegada a estes personagens. Durante toda a história o único caso de um tropeiro desonesto foi o narrado por Gustavo Pena em conferência pronunciada no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. O conferencista conta que certo dono de tropa em coluio com um velhaco, desviou mercadoria pertencente a outra pessoa, enriquecendo ao longo de alguns anos. Mas o mesmo se sentiu tão mortificado pelo remorso que depois de alguns anos pagou a dívida com juros. Conclui que “o único tropeiro desonesto que houve em Minas acabou honrado”. (GOULART, 1961).

Além de comerciantes, os tropeiros eram os intermediários e interlocutores de negócios entre as colônias, outro fator provocado pela confiança que lhe era reservada.

O lucro obtido pelos tropeiros, principalmente o dono da tropa era retirada pelo aumento, muitas vezes abusivo, do preço das mercadorias, subtraído pelos prejuízos ao longo do caminho, como extravio e perda de mercadorias e com a morte de animais.

Autores: Elinei Bahia Hermann, Thiago Lima e Patrícia Landuche

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