Bem Vindo ao Blog do Pêga!

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O propósito do Blog do Pêga é desenvolver e promover a raça, encorajando a sociedade entre os criadores e admiradores por meio de circulação de informações úteis.

Existe muita literatura sobre cavalos, mas poucos escrevem sobre jumentos e muares. Este é um espaço para postar artigos, informações e fotos sobre esses fantásticos animais. Estamos sempre a procura de novo material, ajude a transformar este blog na maior enciclopédia de jumentos e muares da história! Caso alguém queira colaborar com histórias, artigos, fotos, informações, etc ... entre em contato conosco: fazendasnoca@uol.com.br

sábado, 30 de março de 2013

História - O porquê, o quando, o como e o onde

 

A partir da chegada dos espanhóis na Cordilheira dos Andes e a identificação do monumental volume de minerais preciosos, ocorre o início de um fenômeno sócio-econômico com repercussão em toda América Latina - o Tropeirismo. Era o século XVII e o envolvimento atinge também o Brasil.

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Simultaneamente os portugueses chegam ao Brasil com os mesmos objetivos dos espanhóis. Após um século no litoral resolvem ir atrás do ouro.

Lá, como aqui, na primeira fase, a chegada dos desconhecidos foi recebida com perplexidade e medo. Os locais dominados "colaboram" com os invasores e, através do porto de Cartagena das Índias, encaminharam para a Europa prata, ouro, pedras preciosas, estanho; enfim, enormes riquezas. Contudo, aqueles espanhóis enfrentaram, em pleno Oceano Atlântico, piratas e corsários, ingleses e franceses, ocorrendo combates e muitas vezes, naufrágios, ocasiões em que a valorizada carga era perdida.

Com o tropeirismo avançando em toda a América Latina, ocorre novo encontreo histórico entre espanhóis e portugueses, ampliando a soma dos usos e costumes entre os dois povos, incorporando hábitos indígenas e, mais tarde, os dos africanos.

Vive-se mais uma vez uma situação de conflitos. A força dos ibéricos contra os recursos dos habitantes da América Latina - que não conheceram armas de fogo. Para os indígenas, todos os elementos da natureza eram dádivas divinas que deveriam ser protegidas e respeitadas. Para os europeus isso não fazia sentido.

Os habitantes da América logo desistiram de colaborar com os visitantes, ainda que escravizados e, como o volume de minerais era enorme, os espanhóis traziam nos porões dos seus navios burros e mulas para execução dos trabalhos. Este é o início do Tropeirismo Latino. Interessante que a reserva do mercado de produção dos jumentos e éguas continuava sendo mantida na Europa.

O produto híbrido vinha para prestar os serviços de transporte para o grande e acidentado trecho da Cordilheira dos Andes.

Com o crescimento acelerado do volume de negócios, os espanhóis resolveram implantar um criatório de muares da América Latina.

Neste trecho, compreendido pelos pampas, uma vasta planície localizada entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul (Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil), nasce a região missioneira, onde uma parceira entre jesuítas e índios guarani se frutifica. A docilidade dos animais, a topografia, a dedicação e a seriedade dos padres e índios permite o sucesso.

Da região missioneira, os animais eram encaminhados para a cidade de Salto na Argentina - ao pé da Cordilheira dos Andes, guiados pelos "troperos" que os negociavam em feiras - as primeiras da América.

Os muares são animais resultantes dos cruzamento de jumentos com éguas, e são estéreis. No entanto, são facilmente domados, únicos perfeitamente habilitados a realizar o transporte de cargas em regiões serranas, rodeadas de abismos e florestas, montanhas e de solos áridos. De pouca exigência na alimentação, conviviam - notável saga - com nevascas, ventanias e toda a hostilidade da natureza.

Perto do ano de 1693, as primeiras minas de ouro foram descobertas no estado de Minas Gerais. Houve uma corrida desordenada rumo à região - que prometia fortunas -, o que desencadeou a escassez de alimentos, a falta de meios de transporte e as precárias condições de subsistência.

O ciclo do ouro estava em fase inicial e com ele o fenômento do Tropeirismo, atividade que determinou o povoamento de desde o extremo sul até o norte do Brasil.

Uniu territórios; conduziu o gado; escoou a produção econômica. Criou a identidade brasileira - fruto da miscigenação de raças, culturas, crenças e tradições -, entre indígenas, africanos e europeus.

Era preciso fazer chegar esse gado às Minas Gerais a fim de diminuir a distância entre as cidades e minimizar as crises de abastecimento, tornando possível o envio das mais diversas espécies de sortimentos; trazer do litoral até as minas os produtos necessários para os mineradores e enviar para o litoral o ouro por eles extraído; por fim, dar continuidade ao inevitável progresso.

Em 1733, o coronel português, Cristóvão Pereira de Abreu, partiu por conta própria - depois de em vão pedir apoio aos governos de São Paulo e Curitiba -, traçou e percorreu com sua tropa aproximadamente 1.500 km, o caminho que veio a ser conhecido como Caminho do Viamão, que saía dos Campos de Viamão (RS) e ligava Curitiba a Sorocaba. "Estrada Real", Estrada das Tropas", "Estrada do Sul", "Estrada do Viamão-Sorocaba", "Estrada do Certão" e "Estrada da Mata", também foram denominações dadas à estrada do Viamão.

Neste trajeto a tropa construiu mais de 200 pontes, levou mais de 2000 animais e fez de Sorocaba mais do que uma parada obrigatória para descanso de homens e animais; transformou Sorocaba no principal centro mercador de tropas do estado de São Paulo.

Tamanho foi seu crescimento e importância, que o Estado criou um Registro Fiscal a fim de controlar o número de animais e poder aplicar impostos sobre os mesmos.

O caminho integrou o extremo sul ao centro de Brasil e, por conseguinte, ao domínio português, visto que o território sulino, até então, estava sob posse espanhola. Foi por mais de dois séculos a grande estrada do Brasil nos tempos coloniais, por onde seguiram mulas e cavalos, suprimentos e correspondências, mas também e principalmente, homes e coragem.

Durante anos o País dependeu economicamente do caminho do Viamão. Os animais trouxeram a prosperidade e a riqueza, principalmente para os gaúchos que se dedicavam à sua criação.

Enriqueceram também os grandes homens das tropas, que por vezes iniciavam com dois ou três animais e ao longo do tempo acabavam por montar sua própria tropa com mais de 250 mulas, tornando-se ilustres e abastados donos de terras.

Todos se beneficiavam com a passagem das tropas cargueiras. Os ranchos surgiam e ao seu redor o comércio se formava, dando origem a vilas e povoados. Era preciso receber e alimentar tanto os animais quanto os tropeiros.

"Rebentou a feira" foi o esperado grito partido de Sorocaba. Por séculos o comportamento ecoava por toda a região em desenvolvimento no Brasil. Milhares de brasileiros dirigiam-se anualmente para Sorocaba a fim de adquirirem animais, arreamentos, armas, roupas e quantas quinquilharias oferecessem. "Breganhas, patacas e o dinheiro rolava". Enquanto havia animais para leilão, a feira continuava. Durante o dia tratava-se das mulas dando-lhes milho e sal para comer, cuidava-se do comércio, das selas, das cangalhas e dos arreios, e à noite as festas aconteciam; tinha cantoria, dança, jogo de truco e um bom papo recheado de "causos".

Quando tudo diminuía, era preparar as pensões e ampliar as produções para a próxima feira, a cada ano maior e mais dinâmica; acontecia ao final de março até junho/julho. Ir até Sorocaba foi uma epopéia monumental para tropeiros mineiros, valeparaibanos, fluminenses, capixabas, baianos, cuiabanos, goianos. Muitos repetiam, anualmente, a ousadia, contribuindo assim para a viabilização dos ciclos do ouro, da cana e do café. Estava sendo feita a História do Brasil.

Diversos fatores fizeram de Sorocaba uma das principais cidades, senão a principal delas, nesse contexto econômico do Brasil colonial.

Sorocaba possuía um vasto território - uma planície denominada de Campo Largo de Sorocaba -, capaz de abrigar, para que pastassem, todo o gado que ali chegasse; era passagem obrigatória para se atingir os mercados consumidores que se expandiam em torno; fazia a ligação entre Minas e Rio e, por fim, tinha o rio Sorocaba, que era um obstáculo aos que vinham chegando, o que facilitava a ação fiscal.

Ao chegarem a Sorocaba, para ser comercializados, os muares eram levados para a invernada - pastagem para descanso e engorda -, pois haviam perdido muito peso na longa jornada entre o sul e o sudeste. Aos muares vendidos na feira denominava-se "xucros". Era necessário amansá-los para que se tornassem animais para transporte de carga ou sela, quando então passavam a valer o triplo do preço.

A estrada de Sorocaba até o Viamão mostrou economicamente o Brasil. Os muares representavam dinheiro. Todos eram beneficiados com a passagem das tropas. Homens enriqueceram e modestos pousos tornaram-se animadas vilas e povoados. Em torno das feiras, paralelamente ao comércio dos animais, outras atividades foram se desenvolvendo. Surgiram os artesãos, seleiros, funileiros e ferreiros - atividades especializadas na produção de materiais utilizados pelos tropeiros. Botequins e pequenas lojas também foram abertos. Era enorme a procura por artigos de ouro - jóias e adereços -, e prata - artigos para montaria - estribos, esporas e afins e, principalmente, por aquelas que se tornaram conhecidas como as famosas facas de Sorocaba, utilizadas pelos tropeiros.

Foi a partir desse município que as tropas foram traçando caminhos que hoje são as principais rodovias do parís, com especial atenção ao Vale do Paraíba, que separa a Serra da Mantiqueira da Serra do Mar.

"Para o atento observados, as cidades do Vale não se distanciam entre si mais que 24 km (medidos em léguas, onde cada légua equivalia a 6 km), o que resultava em um dia de viagem com a tropa."

Passagem obrigatória para as Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e portos litorâneos, o vale se destacou como região promissora para o trabalho tropeiro. E, da mesma Sorocaba, tropeiros atingiram os sertões de Goiás-Velho, as minas de Cuiabá, os "caminhos" de Porecatu, Araxá, Amanhece, Cascalho Rico, atingindo a Serra da Canastra e toda a bacia do rio São Francisco.

Toda essa região entre serras propiciou o desenvolvimento do transporte de muares, das tropas e, por séculos, entre os ciclos da cana, do ouro e do café, deu origem ao surgimento de trilhas, rotas, pousos, ranchos e conseqüentemente, das cidades. O aparecimento dos pousos e dos ranchos confundem-se com o nascimento das igrejas. Tão logo eram erguidos casas e comércio, a capela também despontava. O sertão estava sendo ligado - definitiva, social e economicamente ao litoral. O declínio da feira em Sorocaba deu-se na década de 1820, devido à concorrência do gado muar agora também criado em Minas Gerais e em menor escala em Mato Grosso e Goiás e, principalmente, ao surto de febre amarela na cidade. O comércio de tropas foi então transferido para Itapetininga e muitos criatórios de muares já estavam sendo implantados na região sudeste.

Muitos ranchos de tropas transformaram-se nos mercados municipais, ainda hoje encontrados em quase todas as cidades brasileiras, onde se percebe forte influência da arquitetura ibérica.

A excessiva exploração das minas de ouro, obviamente fez com que as jazidas fossem se esgotando e o garimpo apresentou sinais de pouca rentabilidade.

Ao final de 1700 já não era possível encontrar ouro em abundância, mas o cultivo do café já começava a despontar, principalmente no vale do Paraíba. A criação de muares deu um grande salto e conheceu então o seu apogeu.

Pelas Serra da Mantiqueira o tropeiro levava o café para as Minas Gerais - de Lorena ao sul de Minas, de Monte Verde a Aparecida. Pela Serra do Mar e da Bocaina, seguia para o litoral fazendo com que a riqueza do novo ciclo abastecesse as cidades, chegasse aos portos no litoral e pudesse seguir para Portugal. De Cunha a Parati, de Taubaté a Ubatuba, de São José do Barreiro a Mambucaba, de São José dos Campos a São Sebastião.

As principais rotas usadas para ligar São Paulo e Minas ao Rio de Janeiro eram o caminho velho: Minas Gerais - Guaratinguetá - Parati, e o caminho novo: Lorena - Fazenda Santa Cruz. As cidades do Vale do Paraíba despontaram. Silveiras, Cunha, São José do Barreiro, Areias, Lagoinha, São Luís do Paraitinga, Bananal, Lorena, Roseira, Aparecida, Guaratinguetá, Taubaté, Jacareí, Queluz.

("Os Caminhos usados eram tão íngremes e tão difíceis os seus desfiladeiros, que a serra que divide o alto e o médio Vale do Paraíba recebeu a denominação de Serra do Quebra-Cangalha. O nome refletia o esforço para vencer a geografia local que, não raro, rompia as cangalhas, armações em madeira ou ferro que sustentava a carga distribuindo o peso para ambos os lados.")

Velhos e novos caminhos. Os mesmo corajosos e incansáveis homens. Os tropeiros, mais uma vez, faziam escoar a nova produção econômica do País - o café. Mas não só isso: levava-se também batata, trazia-se madeira, suínos, bovinos, feijão, milho, sal, arroz...

Levavam sua cultura por onde quer que passassem; aprendiam e ensinavam. Geravam riquezas, difundiam hábitos e costumes. Faziam florescer cidades a partir de ranchos de tropas.

Os caminhos estavam abertos pelo ciclo do ouro, as tropas experientes e os escravos, à disposição. A cafeicultura expandiu-se. No princípio como arbustos medicinais, e pouco tempo depois como a maior fonte de riqueza da região; "o maior fenômeno agrícola do século". Avançou pelo Vale do Paraíba, atingindo em meados do século XIX a província de São Paulo.

Surgiram os Barões do Café e com eles grandes transformações na sociedade. As casas residenciais saíram das fazendas para as cidades. Aprimorou-se a decoração - cópia da francesa; vieram os teatros, os saraus, as requintadas festas. Mudaram-se os costumes, refinou-se a educação.

Foram também os Barões que trouxeram com seus investimentos a estrada de ferro. Esta aproximou Vale e Corte, mas também trouxe a decadência dos portos no litoral com a inauguração do transporte ferroviário, que ligou os principais municípios paulistas ao porto de Santos entre 1867 e 1872, e a estagnação de outras tantas cidades do Vale, tendo em vista sua distância dos trilhos.

As mulas ainda se faziam necessárias tanto dentro das grandes fazendas, no trabalho árduo dos colonos, como para o transporte de cargas até as ferrovias, que por vezes eram muito distantes.

A queda do café iniciou-se e com ela alguns povoados extinguiram-se. Era o final do século XIX e início do século XX.

As décadas de 20 e 30 do novo século trouxeram consigo o crescente desenvolvimento de grandes centros como a capital de São Paulo, Ribeirão Preto, entre outras cidades interioranas, tendo como pano de fundo o avanço e a expansão das ferrovias e das estradas. Entretanto, ainda em 1940, estados como Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso ainda dependiam das mulas para fazer girar sua economia.

O tropeirismo mostrava sinais de declínio e ia sendo absorvido, pouco a pouco, por outras formas de transporte, primeiramente com o advento dos trens e a melhoria das condições de navegação e, depois nos anos 50, com a chegada dos caminhões e tratores.

Chegam as ferrovias. Chegam os automóveis. Vão-se os muares e os tropeiros. O legado há de se perpetuar através dos séculos. As lembranças sempre estarão presentes, principalmente quando a "prosa" estiver boa e o café saboroso.

Fonte: Ocilio Ferraz.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Comportamento Social

 

Obs: Em Portugal é chamam o jumento de burro, como esse artigo é de lá resolvi deixar o texto original, sem alterações.

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Os burros são animais sociais. A um grupo de burros chama-se “burrada”. São animais que possuem uma estrutura social flexível, isto é, nenhum dos membros do grupo é dominante a título permanente. Os machos lutam pelas fêmeas em estro (corresponde ao cio nos machos).

São animais de temperamento dócil, forte e muito inteligentes, que não perdem a sua integridade e personalidade no contacto com os humanos. Segundo alguns especialistas, comparando com a espécie humana, comportam-se como uma criança inteligente de 5/6 anos.


Embora os burros sejam animais independentes, a companhia das pessoas é fundamental e rapidamente criam laços afectivos fortes com os humanos, se lhes for dispensada a atenção de que necessitam.


1. Comunicação visual

Os burros são comunicadores visuais sofisticados, transmitindo muita informação através de pequenas alterações na postura.
Como qualquer aproximação de outro animal pode ser uma potencial ameaça, eles adoptaram alguns comportamentos destinados a apaziguar e a tranquilizar os seus congéneres.


A posição das orelhas é uma parte importante da linguagem corporal do burro. Por exemplo numa ameaça branda, para morder os burros colocam as orelhas para trás e esticam o pescoço em direcção ao oponente, enquanto que durante o cortejo as orelhas estão em pé e viradas para a frente.
Na postura de cumprimento, as orelhas estão em pé e voltadas para frente e geralmente segue-se um toque com o nariz (nariz com nariz), no pescoço, no ombro ou no flanco do animal cumprimentado.


Quando os Burros estão infelizes ou cansados pode-se observar que as suas orelhas ficam deitadas de lado, (na posição horizontal em relação ao corpo).

2. Vocalizações
O tipo de vocalização, que emitem com maior frequência, é um característico Hi-Hõ – o zurro. Mas para além do zurro possuem um reportório variado de vocalizações, nomeadamente, uma espécie de grunhido, considerado uma vocalização agonística (os comportamentos agonísticos têm a função de alterar a distância entre os membros do grupo). Possuem também um tipo de vocalização particular para mostrar desgosto, excitação ou aflição, entre outras.


O zurro ouve-se a uma distância considerável. A título de curiosidade, no México, os Burros são apelidados de “os canários da montanha”, pelos seus zurros que ecoam por toda a montanha.


As funções do zurro são diversas, por exemplo, juntar o grupo, procurar um animal perdido ou advertir sobre o estatuto. As fêmeas em estro zurram com frequência. Os burros também zurram quando em regime de estabulação ou semi-estabulação (o mais aconselhado), acontece um atraso na hora de lhes fornecer alimento.


3. A Resposta de Flehmen
Os burros têm uma via olfactiva secundária que é usada para testar odores, mostrando um comportamento específico, a chamada “resposta de Flehmen”.
Durante a resposta de Flehmen os burros ficam com o pescoço levantado, frequentemente virado para um dos lados, enquanto o lábio superior é puxado e esticado para cima e o lábio inferior é puxado para baixo. Os maxilares inferior e superior ficam juntos com os dentes da frente a descoberto.
Os burros cheiram tanto a urina como as fezes uns dos outros, apresentando de seguida, com frequência a resposta de Flehmen, presumindo-se assim que estas excreções tenham uma função social relevante. É provável que a urina destes animais contenha informações como a receptividade da fêmea, identidade, estatuto, etc.


4. Cuidados prestados à pele e ao pêlo

Os Burros dedicam uma pequena parte do dia a cuidar da pele e do pêlo.
Conseguem chegar a grande parte do corpo por eles próprios. Para cuidar das partes inacessíveis têm estratégias tão interessantes como o grooming ou o acto de se espojar ou ainda o acto de se coçarem e.g. nos troncos/ramos das árvores, nos cantos das paredes de pedra, etc.


4.1 Grooming
Um dos enormes prazeres de ver dois burros juntos é vê-los fazer grooming mútuo.


Uma sessão de grooming mútuo é iniciada por uma aproximação de apaziguamento, em que o animal apresenta as orelhas apontadas para a frente e ocasionalmente a boca ligeiramente aberta tocando no pescoço do companheiro/a. Os dois animais colocam-se lado a lado, em direcções opostas mordiscando as costas um do outro ao longo da coluna vertebral, no pescoço, na crina e noutras partes inacessíveis sem um parceiro. Este ritual pode durar desde alguns minutos até mais de meia hora.


Para além de cuidar da pele, este comportamento afiliativo, dá conforto e tem a função de aproximar os membros do grupo. Os comportamentos afiliativos englobam o acto de cumprimentar, o jogo e o grooming.


Às vezes um dos parceiros faz grooming sem receber. Dois exemplos disso são, quando as progenitoras prestam cuidados ao pêlo da cria ou quando um macho durante o cortejo faz grooming à fêmea.


Estes cuidados prestados apenas num sentido têm tendência a ter uma duração mais curta.


4.2 Comportamento de espojar
O comportamento de espojar consiste em colocar o dorso em contacto com o solo virando-se sucessivamente para um e para outro lado, cobrindo-se de terra/poeira. Tem a função de remover o pêlo que está na muda e eliminar os ectoparasitas (parasitas externos) e com certeza, pelo prazer de coçar as costas. Gostam de fazê-lo em grupo e é frequente ver mais do que um burro a espojar-se ao mesmo tempo. Normalmente têm sítios seleccionados para o fazer.


Se observar um burro a escavar com uma das patas da frente um pedaço de solo nu, pode ter a certeza que instantes depois estará a espojar-se nesse local.


5. Comportamento sexual
As fêmeas dos asininos têm um comportamento sexual muito explícito. A fêmea em estro mostra-se irrequieta, urina mais do que o normal, frequentemente agita mais a cauda, faz um movimento de abrir e fechar a vulva e masca quando em presença ou ao ouvir o zurro de um macho.
O comportamento de mascar, semelhante a um movimento exagerado de mastigação, no qual os lábios superior e inferior nunca se tocam, é um comportamento de submissão (comportamento de aceitação, que serve para manter a ordem no grupo e evitar lutas). A fêmea move as maxilas para cima e para baixo com os dentes maioritariamente cobertos e os cantos da boca puxados para trás. As suas orelhas posicionam-se deitadas de lado e o pescoço fica esticado horizontalmente. A fêmea solicita ser montada colocando-se de costas em direcção a outros burros, fazendo pequenos movimentos de saltos com os quadris.


Um macho testa a receptividade de uma fêmea cheirando os seus genitais e descansando a cabeça nos seus quadris ou empurrando o seu peito contra a garupa (zona compreendida entre a inserção da cauda e o dorso do animal) da fêmea. Os machos também tentam montar fêmeas não receptivas.
Durante a cópula os machos frequentemente mordem o pescoço da fêmea, podendo feri-las com alguma gravidade. Por vezes é necessário ajudar o macho a encaminhar o pénis na direcção certa.


6. Vínculação
Logo após o nascimento forma-se entre a progenitora e a cria um vínculo muito forte, que é essencial para a sua sobrevivência. É com a criação deste vínculo que a progenitora vai prestar cuidados parentais à sua cria e não a outras crias quaisquer. Nos primeiros meses, a progenitora mantém um contacto físico muito próximo com a sua cria. No entanto, o vínculo da cria em direcção à progenitora leva uns dias a estabelecer-se, sendo que durante este período a progenitora posiciona-se sempre entre a cria e os restantes animais, não a deixando entrar em contacto com os outros.


Os cuidados parentais começam logo após o nascimento e prolongam-se até a cria completar aproximadamente um ano ou mais se mãe e cria permanecerem juntas. Estes cuidados incluem deixar a cria mamar, prestação de cuidados à pele e ao pêlo, e.g. grooming, protecção, etc.
Quando as crias são pequenas, enquanto descansam, as progenitoras permanecem junto delas. Quando crescem passam a ser as crias a tomar a iniciativa de permanecer junto da progenitora.

 

Fonte: Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino

terça-feira, 19 de março de 2013

Depoimento - Dino

 

Procurei Arcedino Bernardes (Arcedino com “r” mesmo, conforme enfatizou), o Dino Comissário, a partir de uma sugestão de Zé da Neta. Dino tem 87 anos (nasceu em 10/05/1920) e não parece. Quando cheguei em sua casa, D. Maria José, sua esposa, reclamava que ele havia subido no telhado para verificar algumas telhas: e lá estava ele, lépido como um jovem, subindo em telhados ... Dino Comissário tem uma saúde de ferro. Conversamos em sua casa, em um bairro de Goiânia, numa tarde chuvosa e quente de 2ª feira:

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- ... nasci em São Sebastião do Paraíso, sul de Minas, em 1920, mas me mudei para Itumbiara (GO) com um ano de idade. Aí, quando eu tinha 8 anos fui morar com o Lalau do Couto, boiadeiro e comissário, pois meu pai tinha morrido. Quando fiz uns 10, 12 anos, comecei a ir na comitiva dele, pra Barretos (SP), trabalhando de copeiro, ajudando o cozinheiro. Na segunda viagem, já fui de ponteiro da boiada ... em 1934, eu fiz uma viagem, tinha 14 anos de idade, de Itumbiara pro Vão dos Angicos e depois pra São Sebastião do Paraíso, em Minas, foi 6 meses de viagem ...
- É muito tempo ! Onde é o Vão dos Angicos ?
- É um lugar no Vão do Paranã, lá no nordeste de Goiás (perto de Cavalcante)... nós levamos 16 dias montados só pra chegar lá.
- Deve dar uns 700 km ou mais ...
- Pois é, chegamos lá, o Lalau comprou 1.400 bois curraleiros (na época, não havia Nelore), aqueles chifrudos, boi de curral mesmo, era uma boiada de 8, 10 anos de idade, de 12 a 14 anos.
- Nossa, isso tudo ?
- Era tudo boi muito erado (com muita idade, muitas eras) mesmo. Ficamos quase um mês lá, comprando e juntando gado. Saímos de Vão dos Angicos, passamos por Pirenópolis, Santa Luzia da Marmelada (Luziânia), Bela Vista, Pouso Alto (Piracanjuba), Morrinhos, Buriti Alegre, Itumbiara, Monte Alegre, já em Minas, Uberabinha (Uberlândia), Araguari, Lagoa dos Esteios, Serra das Sete Voltas, Rio São João, Rio Grande, na ponte Surubim, que liga com São Paulo, fomos pra Santa Rita de Castro, fomos pra Pratapolis e São Sebastião do Paraíso ... entregamos a boiada, foram uns 150 dias viajando com a boiada, fora o mês lá no Vão dos Angicos, levamos 6 meses. Ainda voltamos a cavalo pra Itumbiara ...
- Isso é que é viagem ... Naquela época, década de 30, sem estrada, sem recursos, 6 meses no maior sertão ... boiada curraleira e o sr. ainda menino ...
- Eu viajei de 34 a 41 como capataz, passei a comprar boi. Aprendi a contar gado com o Lalau. Pegava gado no interior de Goiás, até em Rio Bonito (Caiapônia) e levava pra Barretos, em São Paulo.
- Como eram as viagens naqueles tempos ?
- Ah, viagem era só no mato, cerrado, não tinha ponte, cruzava rio a nado, era uma solidão só. Tinha uma coisa boa: toda vez que passava numa fazenda a gente ficava uma semana lá parado, o fazendeiro não deixava a gente seguir viagem, o fazendeiro achava tão bom ... mas hoje é diferente, não quer nem ver a gente.
- Fazendeiro queria conversar, né ?
- É, conversava demais com a gente, era o prazer deles, a gente levava notícias daqui, dali, né ...
- Ainda tinha tropeiro na época que o sr. viajava ?
- Tinha, todo mundo viajava no cargueiro (burro cargueiro), até o dentista tinha um cargueiro, era tudo no burro ... Bom, aí em 42 eu casei e virei comissário.

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- E como foi isso ?
- Eu viajava de capataz e aí comecei a viajar pra uma pessoa, o Celso Vieira, que viu meu trabalho. Foi lá em Rio Bonito, eu comecei todo ano a ir lá comprar boiada e levar pra Itumbiara. Lá tinha boi mesmo, prá lá do Rio Bonito, tinha uns Vilela por lá, era muito boi, boiada boa toda vida ... E todo ano eu ia lá pegar boiada prá trazer pra Itumbiara. Aí esse Celso foi uma vez, viu meu trabalho, depois de uns 10 dias trabalhando, juntando gado, era 1.100 bois, ele já ia embora, cedinho, lá na comitiva, me perguntou “você ganha quanto ?”. Eu respondi, uns 300 mil réis por mês, era mil réis, os peões ganhavam 2 mil réis por dia, eram uns 12 peões comigo. E ele falou “pra tomar conta desses mil e tantos bois ? e a responsabilidade toda sua ?”. Nós tinhamos juntado aquele gado brabo, eu tinha prática ... Ai ele falou, eu nunca esqueci disso: “o Dino, você tem muita capacidade, não precisa trabalhar de capataz não. Você precisa comprar uma tropa e trabalhar de comissário”. Lá eu tava com 40 burros. Ai eu falei, comprar com que ? “Quando você chegar lá em Itumbiara, eu vou te vender uma tropa”. Quando ele saiu, mandei um peão levar ele lá em Caiapônia, ele ia pegar um ônibus ou caminhão, não lembro, eu falei com os peões, olha, aqui no mato todo homem é muito bom, ta falando que vai comprar tropa pra mim, chega lá nem me conhece ... Mas quando cheguei em Itumbiara, ele me mandou um bilhete, fui procurar ele, ele me mandou ir em Água Limpa, na fazenda, ir pegar 40 burros, eu fui até lá com meu cunhado. Cheguei na fazenda, o Celso falou “a tropa ta aí, a tropa é pra você”. Eu falei, eu não dou conta de pagar essa tropa, não. Um tropão que precisava de ver ... Não, daqui pra Barretos eu viajo só com 16 burros, não precisa esses 40 não, eu disse. Com 16 burros eu levo 1000 bois pra Barretos. Aí ele mandou eu apartar os 16 burros, eu escolhi os mais ajeitados, tudo brabo, né ? Uma tropa ajeitada. Aí ele me disse, “assina aqui pra mim”, eu olhei, não era letra não, era um bilhete. Aí eu falei, eu não sei se dou conta de pagar, não. Aí ele falou “se não der conta de pagar, você pode sumir com burro e tudo”. Ele falou pra mim desse jeito. Aí eu e o irmão dela e mais dois fomos amansar os burros.
(d.Maria José intervém)
- Você ta me deixando de fora, né ? Foi nós dois. Ele repassava e eu botava freio ...
- A sra. montava também ?!
- Que que é isso ?! Fui criada em burro ... Uma mula saltou comigo na ponte Afonso Pena, a boiada tava todinha dentro da ponte e as tábuas estavam quebradas, um peão gritava “vai cair na água!”, caí nada.

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(volta a falar o Dino)
- Aí, com essa tropa amansada, eu peguei uma viagem pra Guaíra, em São Paulo. Eram 800 bois, eu fiz a viagem toda sem pagar pouso, porque era a 1ª viagem como comissário, todo mundo dos pousos me conhecia, sabia que era a primeira viagem como comissário, aí ninguém cobrava ... Fiquei com 20 mil réis, paguei 16 mil pelos 16 burros e fiquei quite com o Celso. Isso foi em um mês. E aí nunca mais parei. Nunca faltou serviço.
- E viajou até quando ?
- A última viagem que fiz foi em 1995, pro Xingu, no Mato Grosso, 1.100 bois, foram 64 marchas. E parei porque não achei mais peão bom ...
- E quando o sr. veio pra Goiânia ?
- Eu mudei em 55, porque Goiânia tinha mais serviço. Trabalhei uns 4 anos só pra um frigorífico, puxava vaca pro frigorífico e depois voltei a viajar prá todo lado. Eu tive, antes de vir pra Goiânia, uma fazenda em Itumbiara, isso foi em 52, eram uns 14 alqueires, muito boa, vendi ...
- E qual foi a melhor viagem que o sr. fez ?
- Ah, eu fiz uma viagem que deu muito trabalho mas foi muito boa, eu saí com 400 vacas, a maioria tava mojando (prenhe), de Novo Brasil (GO). Tinha vaca com bezerrinha nova, eu botei a bezerra na carroça e fomos tocando até Cavalo Queimado (Araguapaz, GO). Lá, peguei mais 700 cabeças e seguimos viagem. E foi nascendo bezerro no caminho, eu tive que arrumar uma carroça prá carregar bezerro. Fomos até Arapoema (atual Tocantins) nessa toada. Foram 3 meses e cinco dias, nasceram 134 bezerros, morreram uns 10 no caminho ... Foi uma viagem diferente, muito boa. Botei o nome de Perereca na 1ª bezerra que nasceu ...
- E a pior ?
- Foi numa que peguei a tropa emprestada, acho que em 80, por aí. Peguei a tropa em Paraúna (GO), e a boiada pra lá de Mara Rosa (também em GO). Era pra ir até Inhumas, perto de Goiânia. Eram 900 bois gordos, dava umas 18 marchas, coisa pequena. Em Pilar de Goiás, perdi 2 bois, caíram num buraco. Não conseguia tirar de jeito nenhum e aí consegui vender um para um açougueiro, o boi tava no buraco, vendi como se tivesse 18 arrobas (1 arroba = 15 quilos). Ele matou lá mesmo. Quando o açougueiro pesou, deu 21 arrobas e 3 quilos ... Era uma boiada enorme. O outro boi eu dei para os garimpeiros ... Aí, numa ponte em Itapaci, a boiada estourou e correu pra cima do peão que ficava na ponte, controlando. Pisoteou o peão, que conseguiu abraçar o pescoço de um boi mas caiu da ponte, junto com vários bois. Morreu esmagado. Cheguei em Carmo do Rio Verde, fui benzer a boiada. Resolvi passar pela cidade no meio da noite, pra boiada não estourar. Quando eu to lá procurando benzedeira, um peão chega pra mim e fala que caíram 2 bois num buraco de fossa, na cidade ... Foi um desespero, um sufoco. Só consegui tirar os bois com ajuda de um monte de gente, foi no braço mesmo e até com a ajuda de um caminhoneiro, com corda. E o sr. sabe que depois que eu arrumei a benzedeira, nunca mais aconteceu nada ? A viagem foi até o fim sem nenhum problema ..


Dino Comissário está casado com D. Maria José Bernardes desde 1942.Ela, além de amansadora de burros, viajava, sempre que podia, na comitiva. Tiveram 4 filhos, todos casados. Eles têm 8 netos e 8 bisnetos. E é com orgulho que falam de todos. Dino é aposentado pela previdência pública, e, além da saúde de ferro, mantém a memória ativa e a alegria de quem cumpriu sua missão.
Goiânia, novembro de 2007.

Fonte: Foto Memória

quarta-feira, 13 de março de 2013

Artrite Viral Equina

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Doença infecciosa, provocada por um vírus que se manifesta no aparelho respiratório e ocorrência de aborto, nas éguas, em função das lesões causadas nas artérias. Esse vírus, apesar de identificado, inicialmente, na Europa, em 1953, tem sido notificado com maior incidência, nos EUA. A partir do sêmen de um garanhão, ele foi isolado, pela primeira vez, na América do Sul. O portador era um cavalo argentino.

As raças puras são mais vulneráveis a essa doença; raramente ela aparece em cavalos mestiços. Pode ser confundida com a influenza e com a rinopneumonite, pois os sintomas respiratórios são muito parecidos.

Apesar de a manifestação do vírus ser mais comum em animais adultos, com maior gravidade, eles podem ser infectados em qualquer idade, até mesmo os potros, desde o desmame, até os dois ou três anos. A doença ocorre em áreas de alta concentração de animais, pois o vírus dissemina-se, rapidamente, num grupo de equinos suscetíveis e, apesar de a evolução ser curta, o surto pode persistir por longo período.

A doença fica incubada por um período de 2 a 10 dias, seguido por um quadro febril, entre 39 e 41 graus. É quando pode ocorrer a transmissão, pois o vírus está presente no sangue. Ela pode permanecer no animal por até 8 dias.

A transmissão acontece por vias aéreas, orais, água, fômites e alimentos contaminados por secreções e excreções de animais doentes. Também, é possível que se faça pelas vias venéreas, no contato com fetos abortados e placenta, no pasto. Líquidos e tecidos de fetos abortados são considerados perigosas fontes de infecção.

A eliminação do vírus acontece, também, pela urina e sêmen. Por isso, sabe-se que o garanhão infectado exerce papel importante na disseminação dessa doença, por serem portadores por longo tempo, apesar de se apresentarem sadios após superar a infecção.

Potros, filhos de éguas portadoras de anticorpos, são mais resistentes à infecção, pois ingerem os anticorpos maternos, pelo colostro que os protege por, aproximadamente, de dois a seis meses de idade.

Os sintomas respiratórios caracterizam-se principalmente por corrimento nasal – que pode tornar-se purulento –, lacrimejamento, conjuntivite e, em quadros mais graves, edema pulmonar. O animal ainda apresenta fraqueza muscular, tosse, apatia, falta de apetite, diarreia e cólica. Alguns animais estabulados podem sofrer edemas dos membros, que nos garanhões pode se estender até o prepúcio e escroto, e nas éguas, até as mamas. A doença é de caráter agudo e grave podendo, em alguns casos, ocorrer mortes sem que haja infecção bacteriana secundária. A morte acontece devido à desidratação ou insuficiência respiratória causada pelo edema pulmonar.

A consequência principal, dessa doença, e os inevitáveis prejuízos são os abortos, causados por miometrite necrotizante grave. Isso acontece por volta de quatorze dias após o aparecimento dos sintomas. Na rinopneumonite, isso ocorre mais tardiamente. O índice de perda de fetos é alto, girando em torno de 50 a 80%.

Sinais clínicos, como abortos precoces, sintomas respiratórios, exames laboratoriais, levantamento sorológico e isolamento viral vão determinar o diagnóstico. O vírus pode ser isolado a partir dos pulmões e baço de fetos abortados e do baço de animais mortos, porém não há corpúsculos de inclusão nem lesões específicas no feto.

O tratamento é sintomático, impedindo-se que apareçam infecções bacterianas secundárias, utilizando-se antibióticos e fluidoterapia de suporte.Repouso e vigilância para os animais infectados, enquanto que para os mais gravemente afetados, devem-se providenciar baias arejadas, porém livres das correntes de ar, com cama alta e macia.

A vacinação de todos os animais da tropa é o melhor meio de prevenção, apesar de ainda não haver, no Brasil, a vacina específica para esse mal, mesmo já se tendo notícia de que a doença acomete animais brasileiros. Essa providência ainda depende das autoridades dos programas sanitários governamentais, o contrário do que acontece no Canadá, onde a vacina é usada pela grande maioria dos criadores e médicos veterinários.

Vários fatores contribuem para que não ocorra a disseminação de qualquer doença, como a boa higiene do manejo e das instalações, a quarentena, a divisão dos animais por categoria etc.

Autor: Rogério Dantas Gama – Médico Veterinário

Fonte: Bicho Online

Adaptação: Escola do Cavalo

quarta-feira, 6 de março de 2013

Como casquear um cavalo?

 

 

Como casquear um cavalo é assunto na Jovem Pan Online. Profissionais falam sobre a importância de cuidar bem do casco do cavalo.
Acesse: http://jovempan.uol.com.br/media/online/

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Claudicação Equina

 

A intervenção médica, em equinos, se deve, em grande escala, aos problemas de claudicação; entre 50 e 80% dos casos. É um dos principais fatores que contribuem, negativamente, com a carreira desportiva e final de vida atlética dos cavalos.

Definida, por muitos autores, como sendo uma alteração do movimento normal do cavalo, a claudicação possui três origens distintas: mecânica, neurológica e dolorosa. Podem aparecer associadas, entretanto, a mais comum é a de origem dolorosa.

A dor possui vários graus de intensidade. Num extremo, pode-se ter um animal com fratura completa de um osso, que o impede de se apoiar totalmente, no solo, andando, literalmente, sobre três patas, o que não é difícil de se identificar.

De outro lado, pode-se observar uma dor bastante ligeira, que perturba o animal, quando da batida de um salto, por exemplo, fazendo com que ele toque na vara ou se recuse a saltar. Isso demanda grande habilidade do observador, por se tratar de um comportamento, uma atitude de reação, e não de sinal físico muito explícito.

É muito importante, ao se observar a claudicação, que se identifique o membro oumembros afetados, observando-se o cavalo andando, a passo, com especial atenção à simetria do movimento, extensão da passada, aprumos e o modo de apoio do casco ao solo.

Em seguida, observa-se, do mesmo modo, o cavalo a trote, para a complementação do exame, principalmente, no caso de claudicações ligeiras.

Em superfície dura, faz-se a avaliação do animal à guia, trotando para ambas as mãos.

A claudicação pode ser evidenciada após o teste de flexão, realizado pelo médico veterinário. Avaliam-se os membros e suas respectivas articulações. As forças de tensão e de pressão são exercidas em diversas estruturas, tais como ligamentos e cápsulas articulares. Assim, é possível realçar focos inflamatórios ligeiros, com evidência de dor.

A claudicação não é tão simples de ser identificada. Por isso, há que se fazer um exame minucioso do animal, para se detectar onde se encontra o problema. Como os animais não falam, não podem dizer onde é que dói. Se a dor não for suficiente para o cavalo reagir quando se pressiona ou se manipula o foco doloroso, pode ser difícil identificar a exata localização do problema. Somente o andamento do cavalo não é suficiente para que se possa identificar a claudicação.

Existem outros meios eficientes para que o médico veterinário consiga um diagnóstico mais preciso, nesse caso, como a infiltração local de anestésico, ou a anestesia intra-articular. Isso pode dessensibilizar, seletivamente, determinadas regiões, confirmando ou eliminando a suspeita de dor localizada. Após esses testes, prossegue-se com os exames complementares, como o raio X e ecografia, para, então, se prescrever, com segurança, o tratamento adequado.

Autor: Dr. Henrique Cruz MV

Fonte: Cavalo do sul de minas

Adaptação: Escola do Cavalo

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Tropeiros no Brasil – Burros de Carga

 

A DISPERSÃO do povoamento do interior do Brasil, desde o início da colonização, e as necessidades do comércio e das comunicações, deram em resultado o uso de transporte em dorso de animal. Tal tipo de transporte não foi de maneira mais decisiva oriundo do afastamento dos centros populosos; determinou-o, antes o tipo de estrada a percorrer. O relevo acidentado do nosso território contribuiu para que os caminhos fossem com freqüência íngremes e tortuosos; as florestas eram também sério obstáculo a vencer e as estradas que as atravessavam eram em geral estreitas, com solo escorregadio e pouco consistente, dada a umidade reinante; a pavimentação, quando havia, era feita de maneira rudimentar com pedras irregulares. Assim, entre o carro de boi e o burro, triunfou o último, por melhor se adaptar a tal estrada. O transporte em lombo de muar é, assim, função da precariedade das vias de comunicação e do acidentado do relevo.

É fácil imaginar-se a importância desse transporte, principalmente quando o Brasil não conhecia a ferrovia nem a estrada de rodagem, Saint–Hilaire, descrevendo o porto de Estrela de 1819, extremo da estrada de Vila Rica, mostra-se impressionado com o movimento intenso emprestado pelas "tropas" que asseguravam a ligação entre o sertão mineiro e o Rio. Igual movimento, não inferior ao de certas estradas européias da época, observava-se em outros portos-entrepostos, com Guaçu e Porto das Caixas.

Na história do transporte no Brasil, ressalta logo, pela sua simplicidade e valor, a besta de carga. Ainda, hoje, onde não se conhece ou não se acomoda o automóvel, é a tração animal ou a carga em lombo de muar o meio mais comum de transporte, apesar mesmo da profunda penetração atual do caminhão-automóvel. Quanto à espécie do animal empregado, varia com os recursos de cada região. Entretanto, o burro é o elemento preferido, por suportar melhor a crueza do caminho e o peso da carga.

A "tropa", ou o burro isolado, constitui no interior do Brasil o tipo genérico da circulação geral, para carga: apresenta grande raio de ação e é o mais encontradiço. É um comboio de muitos animais de carga que, conforme o número, é dividido em dois ou mais lotes conduzidos cada um pelo tocador. O condutor-chefe, o tropeiro, muitas vezes é o proprietário. Este conjunto, que se desloca em passo lento, desperta logo a atenção pela "madrinha" que vai à frente, adornada de fitas e chapadas de metal e fazendo bimbalhar pequenas compainhas ou guizos. O papel da "madrinha" é orientar os outros animais e facilitar a sua reunião após o descanso.

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Em certos pontos do país, a "tropa" é empregada nos trabalhos da fazenda. No entanto, a circulação local, de pequeno percurso, é executada,

de preferência pelo carro de boi, ao passo que a "tropa", embora seja um meio mais primitivo, é mais usada para circulaão geral, a grandes distâncias.

Segundo o professor P. Deffontaines, o "tropeiro" foi o traço de união entre o norte e o sul do Brasil, o sul, plano, campestre e criador, forneceu o elemento necessário para penetrar o norte, acidentado e florestal; Sorocaba, situada em posição propícia, era "a cidade-eixo entre o país da árvore e o da erva, e por isso tornou-se o centro das feiras de animais". Os rios, correndo no sul, da periferia para o centro não ofereciam escoadouro prático para os produtos do interior. Coube este papel à besta de carga, à "tropa". O valor considerável do animal como agente transportador pode ser avaliado comparando-se a escassa quilometragem das nossas estradas de ferro e de rodagem.

A primeira concorrência sofrida por êqse sistema de transporte na grande circulação foi, de certo, o caminho de ferro, e mais tarde a rodovia. Mas, quer os trilhos, quer as faixas lisas das rodovias, não extinguiram a "tropa", que continua a exercer função importante na hinterlândia. Modernamente, a "tropa" atua entre as pequenas cidades, vilas e povoados, convergindo para as feiras.

Na época colonial o muar prestou sempre relevantes serviços. Nas audaciosas arremetidas dos bandeirantes pelo sertão, acompanhava-os o cargueiro. Neste serviço o cavalo foi elemento escasso. Até hoje, passados três séculos, o muar continua junto ao homem nas lutas mais árduas, principalmente no Nordeste, onde o jumento resiste à seca e auxilia eficaz e pacientemente o homem.

A estampa não focaliza propriamente uma "tropa" que, conforme foi dito, é constituída de grande número de animais. Representa caboclos que levam para as feiras os produtos de suas roças, devendo trazer depois aquilo de que mais necessitam. Alguns fazem ainda serviços de empreitada e correio, e distinguem-se pela honestidade e zelo.

O equipamento do cargueiro é mais ou menos fixo para todas as regiões em que é encontrado. A base deste equipamento está na cangalha: um colchão de palha trançada formando sistema com um aparelho de madeira, que serve para suportar a carga. Como dispositivos complementares, usam-se a cilha comum, para evitar o deslizamento lateral da cangalha, e o rabicho e o peitoral com a função de impedir o avanço livre da carga para diante ou para trás. Aliás, a segurança do transporte reside numa boa distribuição da carga e conseqüente equilíbrio, no que o caboclo é perito.

Conforme o gênero da carga, varia o tipo do seu acondicionamento para o transporte. Assim, a carga pode ser levada em sacos, fardos, em bruacas ou em caçuás. Geralmente os grãos são levados em sacos com a abertura costurada, deitados ao comprido e cintados por uma corda fina que os prende ao cabeçal da cangalha. O algodão é carregado em fardos deitados, e constitui a carga mais fácil de transportar por ser a mais homogênea. A cana, assim como a lenha, vai reunida em pequenos feixes. O caçuá é usado para as cargas mais variadas: o milho em espiga, porcos, galinhas e, no Nordeste, no tempo das secas e grandes migrações, até crianças. É um enorme cesto ou jacá feito de cipó trançado; alguns são tão compridos que quase tocam o solo, razão por que se empregam também os eqüinos neste gênero de transporte. A bruaca é um saco de couro provido de alças, em que o prolongamento de um dos lados serve de cobertura ou fecho. É largamento usado em Mato Grosso, onde o caçuá é desconhecido.

Quando a jornada a vencer é longa e dura alguns dias, o carregamento é protegido por uma lona impermeabilizada para evitar danos por

chuva. O condutor apresenta-se também pitoresco: descalço ou de alpercatas; chapéu de couro ou palha; camisa e calça freqüentemente remendadas com chitas diversas; na mão, o rêlho de cabo flexível e corda de couro trançado.

É este o tipo de transporte e condutor mais comum no Brasil. As necessidades imediatas e a modéstia do meio determinaram um sistema de -transporte satisfatório — embora rústico — para a pequena economia que êle movimenta.

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Autor: Lindalvo Bezerra dos Santos

sábado, 20 de outubro de 2012

MORFOLOGIA DA PLACENTA E INTERAÇÃO MATERNO-FETAL EM JUMENTAS (Equus asinus) DA RAÇA PÊGA

 

RESUMO - Objetivou-se com este estudo analisar a morfologia placentária de fêmeas asininas, espécie, cuja importância no meio rural é de inestimável valor, sendo poucas as informações detalhadas sobre sua placenta, “órgão” imprescindível à viabilidade fetal e a interação materno-fetal, mediante estudo macroscópico, microscópico e de microscopia eletrônica de varredura, os quais, exceto a macroscopia, foram realizados também na interação materno-fetal (útero-placentária). Para tanto, utilizaram-se onze fêmeas desta espécie e foram colhidas 11 placentas logo após a parição a campo, no instante de sua liberação, além de fragmentos de uma placenta oriunda de uma dessas 11 fêmeas, que teve sua gestação acompanhada por duas vezes. Assim, na primeira delas realizou-se operação cesariana e fragmentos da interação materno-fetal foram colhidos; parte deles fixados para posterior processamento usual em histologia e, outra parte, fixada e processada para análise à microscopia eletrônica de varredura. Sua segunda gestação foi acompanhada até o momento da parição e a liberação da placenta após parto normal, sendo colhida na íntegra. Após a colheita, as onze placentas foram pesadas, analisadas macroscopicamente e alguns fragmentos placentários fixados para subseqüente processamento usual em histologia; outros fragmentos foram fixados convenientemente para posterior processamento à microscopia eletrônica de varredura. Das peças analisadas e das preparações microscópicas e ultraestruturais, foram realizadas fotografias, fotomicrografias e ultrafotografias para a documentação. Verificou-se que o valor médio dos pesos dos jumentos, como os pesos das placentas, em relação aos neonatos foi de 8.36.1.10 e 13,18% respectivamente. A microscopia de luz e microscopia eletrônica de varredura
foram observados os vilos coriônicos interdigitando-se às criptas endometriais, formando os microplacentônios; além das áreas areolares e arcadas, glândulas endometriais e membrana corion-alatóide coberta por tufos vilosos, apresentando similaridade com estudos feitos em outra raça de jumentos e éguas.

Palavras-Chave: Placenta, Interação Materno-Fetal, Jumenta.

I. INTRODUÇÃO
Há séculos, os equídeos estão muito ligados ao homem. Desde tempos
distantes, quando os cavalos eram utilizados nas batalhas, até os nossos dias, esse nobre animal, faz-se cada vez mais presente, participando, colaborando, somando e potencializando a capacidade e as façanhas humanas, seja nas mais humildes tarefas ou em importantes competições.


E os asininos? E os muares? Que lugar ocupam nessa era tecnológica? Os muares, em épocas remotas, foram utilizados simultaneamente nos meios rurais, sendo a força de tração nas tarefas agrícolas e ainda meio de transporte. Do “Brasil Colônia”, dos engenhos até nossos dias, mais do que nunca eles se fazem presentes. Haja vista o grande impulso na agricultura familiar, tão propagada, por servir até mesmo como alavanca na política eleitoreira; os muares servem como principal força de tração desse seguimento social que ora se firma como expressão nacional. Ainda há outro nicho, onde os muares, a chamada “tropa de patrão”, tem forte representação nas montarias de elite, cavalgadas, concursos de marcha e andamento (marcha picada ou batida), sendo comercializado por cifras altíssimas.

A tropa de “peão”, que são burros e mulas destinadas ao serviço do campo “ na lida do gado”, se faz presente em todo território nacional.

Então, qual é a importância dos asininos? – É imensa, sem os quais não teríamos os muares, tão necessários e insubstituíveis, pela sua resistência, força e adaptação em qualquer clima solo e vegetação.

Os jumentos chegaram ao Brasil, por volta de 1534, pelo porto de São VicenteSP, oriundos da África e trazidos por colonos portugueses e foram enviados a Pernambuco, onde encontraram ambiente favorável para se reproduzirem rapidamente.

A principal região de criação de jumentos instalou-se em Minas Gerais, nos séculos XVIII e XIX, onde eram necessários à mineração. A partir do século XIX, o Brasil importou jumentos da Espanha, da Itália e da França, com a finalidade de aprimoramento de raça (ABCJ PÊGA, 2008).


A seguir estão descritas informações exaradas pelo Professor Otávio Domingues no jornal da Associação Brasileira dos Criadores de Jumento Pêga (ABCJ PÊGA, 2008).


“Assim, a presença de uma estirpe de asininos em uma região de Minas Gerais constitui fato que não pode causar estranheza a nenhum estudioso de tais assuntos. Os criadores mineiros demonstravam, por força das circunstâncias, aliadas ao seu reconhecido conservadorismo, uma tendência para formação de raças locais, a tal ponto que podemos considerar esta característica como uma daquelas a distinguir o povo montanhês das demais populações brasileiras”.


Por ser a produção de muares uma necessidade para a indústria de mineração, nos séculos XVIII e XIX, era natural que se estabelecesse, nos vales mineiros, uma criação de asininos para produção de muares. Tais asininos seriam forçosamente de procedência IBÉRICA, pois naquela época o provimento das nossas necessidades, nesse terreno, teve ali sua origem mais pronta e natural.


Estudando-se os jumentos selecionados pelos criadores mineiros, não será difícil optar pela hipótese de que seu tronco étnico originário é o Equus asinus africanus, do qual muito se aproximam.


A raça Egípcia é aquela que se acha menos longe do jumento Pêga (mineiro), e dois são os pontos de contato indiscutível: 1. A ocorrência da pelagem branca, frequente no jumento Egípcio e que nenhuma outra variedade de jumento apresenta, seja do Equus asinus africanus ou do Equus asinus europeus. 2. A presença de sinais como estrela e extremidades brancas encontradas no jumento Egípcio.


Portanto, no jumento Pêga deparamos com a presença da cor branca, seja na pelagem, seja sob a forma de sinal de fronte ou nos membros, constituindo ponto seguro a considerar no estudo da filiação da raça Pêga. Admitiu-se uma origem mesclada, visto não ser aceitável a introdução exclusiva do tronco Africano. Houve introdução de reprodutores das raças Italiana, Andaluza e Egípcia.

De modo geral, a população asinina brasileira é uma mescla de dois tipos étnicos: Africanus – Europeus.


Entre as raças européias, distinguem-se a poitevina-francesa, a catalã-espanhola e a apuliesa-italiana. No Brasil, a raça brasileira desenvolvida em planteis paulistas é a de melhor qualidade. A raça Pêga foi criada em Minas Gerais e disseminou-se pelo Rio de Janeiro, pelo Espírito Santo e pelo sul da Bahia. A nordestina, muito rústica, encontra-se nas regiões mais áridas do país. O nome Pêga surgiu no município de Lagoa Dourada-MG, onde o rebanho inicial da Fazenda Engenho Grande, adquirido do Padre Torquato, era constituído de dois jumentos e algumas jumentas que, desde então, não deixou penetrar nesse rebanho, outro sangue. Os animais eram marcados com marca do mesmo formato de uma algema que servia para prender escravos e que se chamava “pega”. Então os animais daquela fazenda passaram a ser reconhecidos pela marca Pêga.


Assim o jumento Pêga representa a mescla fixada em raça e enobrecida pelas suas excepcionais qualidades.

Apesar das várias semelhanças entre equinos, asininos e muares, diferenças marcantes devem ser consideradas. Os asininos e equinos têm a seguinte classificação científica: Reino: Animália, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem Perissodactyla, Família: Equidae, Gênero: Equus, Espécie: E. asinus e E. caballus. Nomenclatura binominal, Equus asinus e Equus caballus, Asininos e equinos.


Os cruzamentos entre equinos e asininos resultam em produtos híbridos, quase sempre estéreis e que podem acontecer das seguintes formas: a) Égua (equino) x Jumento (asininos) = burro ou mula. b) Jumento (asinino) x cavalo (equino) bardoto ou bardota, sendo que os burros e mulas são os mais usados em função das suas capacidades peculiares como: força, resistência, capacidade de aprendizado, docilidade e aceitação do homem nessa interação.


Esses híbridos são quase sempre estéreis devido ao fato de o cavalo possuir 64 cromossomos e o jumento 62, resultando em híbrido com 63 cromossomos.

Apesar do número de cromossomos serem diferentes nessas duas espécies animais, o cruzamento entre ambas é possível, devido à similaridade da placenta da égua e da jumenta (SAMUEL et al., 1974; DANTZER & LEISER, 1992).


A forma definitiva da placenta geralmente é determinada pela distribuição inicial do vilo sobre a superfície coriônica, assim, uma placenta é denominada difusa (égua e suínos) quando as vilosidades distribuem-se regularmente pelo córion. Quando estas vilosidades estiverem agrupadas em pequenas zonas desta estrutura, ela é denominada placenta cotiledonária ou múltipla e vai possuir uma carúncula correspondente na mucosa uterina, como é a placenta dos ruminantes. As vilosidades coriônicas dispostas em uma zona ou cinta determinam a placenta zonária, encontrada em muitos carnívoros. Nos primatas, roedores, quirópteros e insetívoros, a disposição circular dos vilos coriônicos determina a placenta discoidal (STRAHL, 1906 ; GROSSER, 1927, WIMSATT, 1962; SCHWARZE E SCHRÖDER, 1970; RAMSEY, 1982; NODEN & DE LAHUNTA ,1990; LEISER E KAUFMANN, 1994; LEME DOS SANTOS, 1996; HAFEZ, 2004).


Assim, considerando-se a importância dos asininos, além da complexa
característica do “órgão placenta” no evento reprodutivo, objetiva-se com este trabalho, estudar e descrever a morfologia da placenta de jumenta e a interação materno-fetal, quanto à constituição macroscópica, microscópica e ultra-estrutural.

II. REVISÃO DA LITERATURA
A palavra “placenta” conota uma justaposição funcional entre tecidos fetais e maternos e as funções placentárias englobam todas as atividades fisiológicas dependentes, direta ou indiretamente, da fusão e da interação entre esses tecidos durante a vida pré-natal. Entre os mamíferos, a grande gama de atividades placentárias realizam-se por meio de um complexo formado por órgãos especializados os quais se desenvolvem, concorrentemente, em seqüência cronológica ou funcional; este padrão varia amplamente nas diferentes espécies, pode ocorrer a presença de órgãos placentários específicos, funcionalmente ativos por toda, ou só em parte da gestação e que também podem ter suas funções alteradas no decorrer da prenhez.

Estas e outras permutações são responsáveis pela incrível complexidade anatômica e fisiológica da placenta entre os mamíferos (WIMSATT,1962). Nos mamíferos, a placenta é um dos órgãos estruturalmente mais complexos.


Essa complexidade é promovida, em parte, pela interação dos tecidos de origem materna e fetal, além da presença de uma variedade de camadas intermediárias que se interpõem entre os leitos vasculares materno e fetal, bem como devido a evolução das relações destes tecidos e das membranas fetais durante o período de implantação do blastocisto até o parto (MOSSMAN, 1987).


Durante a prenhez dos vertebrados vivíparos, estes desenvolvem um sistema complexo de membranas nutricionais que envolvem o feto. No local de aposição ou de união dessas membranas, denominadas membranas fetais, com a mucosa uterina é formada a placenta, com o propósito de promover as trocas materno-fetais (LEISER & KAUFMANN, 1994).


Define-se a placenta como um órgão transitório formado por tecidos maternos e fetais, com a função de transportar substâncias nutritivas do organismo materno para o feto, bem como promover "trocas metabólicas" e desempenhar funções endócrinas quanto à produção de hormônios na manutenção da gestação (LEISER & KAUFMANN, 1994).

 
Após a fertilização do óvulo pelo espermatozóide e o desenvolvimento do zigoto e seguidas divisões mitóticas até o estágio de blastocisto, este inicia o processo de implantação na mucosa uterina e o embrião passa a apresentar uma extensão de seus folhetos, iniciando a formação dos anexos embrionários (ALMEIDA, 1999; MOORE, & PERSAUD, 2008).


O saco vitelínico, primeiro anexo a ser formado nos mamíferos domésticos, persiste como estrutura rudimentar, sendo precocemente um órgão vasculógeno e hematocitopoético. O âmnion é um envoltório sacular do embrião e do feto, que contém líquido amniótico (impede a desidratação do embrião, permite a motilidade dos tecidos da superfície embrionária e proteção mecânica contra choques e atritos). O alantóide, nos mamíferos é um divertículo endodérmico do intestino posterior que se une ao cório formando a membrana córion-alantoide. Nos equinos e carnívoros, o alantóide desenvolve-se bastante, envolvendo a cavidade amniótica com o feto. O córion, anexo derivado do trofoblasto (o mesoderma extra-embrionário), ao revestir a camada interna do trofoblasto, transforma-o na membrana denominada córion ou serosa.

 
Posteriormente, esta membrana converte-se em cório secundário, dotado de vilosidades, estabelecendo relações com a mucosa uterina. Enfim, o cordão umbilical, anexo que une o feto à placenta, apresentando no seu interior os vasos alantoideanos (agora chamados umbilicais), representados por duas veias e duas artérias (homem, equino e suíno ocorrem obliteração e desintegração da veia umbilical direita). Pode conter ainda pedículos do saco vitelínico e do alantóide (SCHWARZE E SCHRÖDER, 1970; ALMEIDA, 1999; MOORE, & PERSAUD, 2008).


Nos equídeos é consistentemente presente o hipomane mergulhado no fluido alantóico, mas nunca no fluido amniótico. Caracteriza-se como uma estrutura amorfa, de coloração que varia do branco ao marron e corresponde ao cálculo urinário fetal (WHITWELL & JEFFCOTT, 1975).

A placenta das diferentes espécies exibe uma grande diversidade em estruturas que incluem diferentes organizações, quanto ao tipo celular, forma, e modelo de distribuição sobre o endométrio. Assim a placenta pode ser classificada mediante sua forma, a interdigitação materno-fetal e o grau de separação entre as membranas maternal-fetal (KAUFMANN, 1983).


De uma forma mais complexa LEISER & KAUFMANN, (1994) estabeleceram uma classificação placentária mais ampla, baseando-se nos seguintes aspectos: tipo e número de membranas envolvidas; forma externa do órgão; padrão geométrico da interdigitação das superfícies materna e fetal; tipo e número de camadas teciduais separando o sangue materno e fetal; arranjo geométrico dos vasos materno e fetal para troca de substâncias.


Assim, de acordo com as membranas fetais, classificam-se as placentas do seguinte modo: placenta coriônica, primeiro passo no desenvolvimento da placenta em todos os mamíferos (presente até o final da gestação como uma parte avascular e não especializada na placenta dos primatas); placenta coriovitelínica, membrana coriônica conectada à circulação fetal pelos vasos vitelínicos (menor parte das placentas dos perissodactyla e carnívoros); placenta corioalantóica, membrana coriônica conectada à circulação fetal pelos vasos alantoideanos (placenta da maioria dos mamíferos); placenta vitelínica, epitélio do saco vitelínico com vasos vitelínicos conectados à circulação fetal (peixes, anfíbios e parte da placenta de roedores) (LEISER & KAUFMANN, 1994).


Todas as placentas dos mamíferos aumentam a área de contato entre as superfícies materna e fetal através da forma mais ou menos intensa das interdigitações dos tecidos. Quando esta distribuição se prolonga na maior parte da superfície coriônica temos a placenta difusa (suíno, equino). No entanto, na maioria dos mamíferos, as interdigitações estão concentradas em áreas específicas:

Na placenta cotiledonária: típica nos ruminantes, as interdigitações concentram-se em regiões placentárias (placentomas ou placentônios) separadas por áreas intercotiledonárias do cório liso (estrutura membranosa);

Na placenta zonária: encontrada nos carnívoros, a zona de contato das interdigitações formam um cinto ao redor do saco coriônico;

Na placenta bidiscoidal: o tecido de troca concentra-se em dois discos placentários (macaco Rhesus, marmota e alguns roedores);

Na placenta discoidal: encontrada na maioria dos roedores e no homem, o tecido de troca (interdigitações) se encontra em uma área individualizada, na forma de placa/disco (LEISER & KAUFMANN, 1994).


Quanto aos padrões de interdigitação materno-fetal, as placentas podem ser dos seguintes tipos: Tipo pregueado/dobrado, os sulcos da mucosa uterina são ocupadas pelas interdigitações do cório (suíno); Tipo lamelar, encontrado na placenta dos carnívoros, as interdigitações coriônicas se arranjam em múltiplas dobras; Tipo viloso, encontrado nos ruminantes, nos equinos e primatas superiores; as interdigitações coriônicas projetam-se no tecido uterino na forma de cerdas. Tipo trabecular, misto de tipo lamelar e viloso, condição rara, descrita para alguns macacos do novo mundo como o Callitrix. Tipo labiríntico, tipo mais sofisticado de inter-relação dos tecidos maternofetal, encontrado nos roedores e alguns primatas inferiores, as interdigitações se arranjam como uma rede de canais ou lacunas (LEISER & KAUFMANN, 1994).

 
Mediante as camadas de tecido inter-hemal, isto é, mediante o tipo e o número de camadas que separam o sangue materno e fetal), teoricamente seis camadas teciduais separam as circulações materna e fetal - endotélio materno, tecido conjuntivo, epitélio maternal, trofoblasto (epitelio coriônico), tecido conjuntivo fetal e endotélio fetal.


Dessa forma as placentas classificam-se em: Placenta epiteliocorial, quando o epitélio coriônico e o endotélio estão preservados, consequente a uma implantação superficial (suíno e equino); Placenta sinoepiteliocorial, verificada nos ruminantes, é semelhante à placenta epiteliocorial, no entanto, algumas células trofoblásticas (também chamadas binucleadas ou células gigantes) se fundem com as células epiteliais uterinas. O Tipo Sindesmocorial é um estágio transitório inicial, anterior à hibridização (mistura) do epitélio uterino e trofoblasto; Placenta endoteliocorial, verificada em carnívoros e alguns morcegos, as células trofoblásticas se insinuam profundamente até o endotélio materno (LEISER & KAUFMANN, 1994).


A classificação placentária, de acordo com o arranjo geométrico dos capilares maternos e fetais e com relação ao fluxo sanguíneo na área de trocas ocorre da seguinte forma: Por fluxo concorrente que é o sistema menos eficiente para realização das trocas entre o sangue materno e o fetal; neste caso, os capilares materno e fetal estão dispostos de forma paralela e o fluxo sanguíneo percorre na mesma direção. Por fluxo contracorrente, onde os capilares materno e fetal estão dispostos de forma paralela, no entanto o fluxo sanguíneo segue em direção oposta; este é o arranjo vascular mais efetivo na difusão passiva. Por fluxo em corrente secundária (cruza a corrente principal), os capilares dispostos de forma perpendicular, apresentam eficiência intermediária quando comparado ao fluxo corrente e contracorrente. Pode ser simples (carnívoros), duplo (primatas primitivos) ou multiviloso (LEISER & KAUFMANN, 1994).

Na placenta da égua, a junção focalizada, é denominada de microplacentônio(microplacentoma), neste local as áreas vilosas do córion-alantoide igam-se ao endométrio de forma difusa resultando em microplacentônios (EURELL, 2004).

 
A placenta de éguas e jumentas são estruturalmente semelhantes sendo consideradas como difusa, epitéliocorial e microcotiledonária (STEVEN, 1982; LEISER E KAUFMANN, 1994; WOODING E FLINT, 1994; ALLEN E SHORT, 1997; ABDELNAEIM et al., 2006).


A placenta córion-alantóica do equino é classificada como difusa tal qual a dos suínos. Os vilos coriônicos não se apresentam uniformemente distribuídos, formam os tufos vilosos, que penetram no epitélio uterino interdigitando-se às criptas maternas e formando assim, os microplacentônios (microplacentomas), que se estabelecem entre as áreas areolares (RAMSEY, 1982).


As áreas areolares correspondem ao local onde se abrem as glândulas
endometriais, cujas secreções preenchem o espaço areolar, sob a arcada fetal (elevações do trofoblasto) (GINTER, 1992; EURELL, 2004). A aréola é uma estrutura especializada que consistem de parte fetal (alantocórion) e parte materna, incluindo a abertura da glândula uterina. As duas partes são separadas pela cavidade areolar (SABER et al., 2008).

Tanto a placenta da égua quanto a da jumenta, contém dois sistemas
sanguíneos, um de origem materna e outro de origem fetal que são essenciais para a troca de sangue, sendo sugerido para a égua o sistema contra-corrente (ABDELNAEIM, 1998, 2003). Para a jumenta foi verificada uma vascularização placentária mista de fluxo contra-corrente e corrente cruzada (SABER et al., 2008). Ainda ABD- ELNAEIM (1998, 2003) sugerem para a camela o sistema sanguíneo placentário contracorrente.

A placenta da jumenta selvagem da Somália (Equus asinus somalius – Equus africanus somaliensis) é difusa, epitéliocorial, com vilos simples adjacente ao endométrio; não ocorre a invasão do útero pelo trofoblasto, onde foram encontradas células cubóides e uninucleares, não sendo verificadas células binucleadas. Sob a face córion-alantóica o trofoblasto é mais cilíndrico, principalmente entre as vilosidades (BENIRSCHKE, 2004).

Assim como na placenta da égua doméstica e de muitas fêmeas unguladas, na jumenta selvagem da Somália, as células trofoblásticas são cilíndricas e ocasionalmente, grânulos de pigmento amarelo são encontrados inclusos em seu citoplasma. A origem deste pigmento é incerta. Não está associado com hemorragias, como sugere o termo "órgão hemófago", muito discutido na placentação de ovinos. Não se sabe se esse pigmento é derivado da quebra da hemoglobina; há suspeitas de que possa representar a melanina (BENIRSCHKE, 2004).


Quanto às membranas fetais da jumenta selvagem da Somália, o âmnion é constituído por fina camada de tecido conjuntivo com epitélio simples, sendo revestido pela membrana alantóica que contém grande número de vasos sangüíneos; a cavidade formada por ambas as membranas contém a urina fetal e os hippomanes (hipomane) que são estruturas achatadas e marrom e podem permanecer livres ou de forma pedunculada (BENIRSCHKE, 2004).

O Eastern Kiang (Equus kiang) é considerado o maior jumento selvagem e como os demais equídeos, apresentam placenta difusa e epiteliocorial, cujo peso médio é de 3,450 g. (NOWAK, 1999). Toda a superfície deste tipo placentário, segundo AMOROSO (1961) e NOWAK (1999) é coberta com vilosidades curtas e levemente ramificadas, revestidas por uma simples camada de trofoblasto. Não apresenta células binucleadas como os ruminantes. Abaixo da face coriônica e principalmente nos pequenos espaços intervilosos, o epitélio trofoblástico é geralmente, cilíndrico com curtos microvilos e, frequentemente, ocorrem inclusões pigmentares amarelas. AMOROSO (1961) mencionou a presença de gotículas de gordura no citoplasma.

 

Segundo BENIRSCHKE (2004), na distribuição das vilosidades da placenta do Eastern Kiang, pode-se observar grandes espaços de córion liso, ou apenas pequenas distâncias entre elas. Para este mesmo autor, na placenta desses animais, não foi verificada estrutura semelhante a “cotilédones miniaturas”, conforme referenciou AMOROSO (1961).

Na placenta a termo de éguas jovens primíparas observaram-se a presença de microcotiledones fetais, alargados e bem desenvolvidos, além de vilos fetais longos, cujo formato assemelhava-se ao de uma árvore ramificando-se em várias direções.

 
Separando-se manualmente a porção fetal da porção materna das placentas eram verificados, macroscopicamente em microcotiledones e tufos distintos dos vilos sobre a face endometrial do alantocórion (ABD-ELNAEIM et al., 2006).


Histologicamente, os microplacentônios (microplacentomas) da jumenta
consistem de uma parte fetal mais clara, os microcotilédones e de uma parte materna mais escura, as microcarúnculas que se interligam, respectivamente, pelos vilos (fetais) e criptas ou septos maternos. A forma dos microplacentônios parece arredondada em projeção bidimensional ou globular mediante observação tridimensional à microscopia eletrônica de varredura. Com o avanço da prenhez, este formato modifica-se para a forma elíptica/ovóide. Formas intermediárias, entre globular e ovóide também podem ser encontradas (SABER et al., 2008).

Verificou-se ainda, em jumentas, que o comprimento dos microplacentônios, mensurados morfometricamente entre o pólo fetal ou base e pólo maternal ou ápice, mostrou aumento gradual com o avanço da prenhez, atingindo 1060 µm em 70 cm de “crown-rump length” (CRL) com placenta a termo. Também houve um aumento no diâmetro da largura, chegando a 1000 µm em 70 cm de “crown-rump length” (CRL) com placenta a termo. Nas placentas de todas as fases, os microcotilédones são diferenciados com relação aos vilos centrais, intemediários e terminais e o correspondente materno, que são as microcarúnculas estão claramente organizadas como primárias, secundárias e terciárias (criptas terminais) (SABER et al., 2008).

 
Em estudo sobre a morfologia da placenta a termo de jumentas da raça Martina Franca constatou-se ao exame macroscópico que o córion apresentava-se com aspecto aveludado em decorrência da presença dos vilos e sua coloração era avermelhada (CARLUCCIO et al., 2008).

Todas as placentas de jumentas da raça Martina Franca analisadas
apresentavam áreas avilosas no pólo cervical correspondente às pregas endoteliais e também no ápice do corno prenhe (correspondente à junção útero-tubárica). Placas avilosas revestidas por material espesso e viscoso de cor vermelha escura foram encontradas no ápice do corno prenhe de 90% das jumentas estudadas (CARLUCCIO et al., 2008).


Nas placentas de jumentas da raça Martina Franca o âmnion aparece como uma membrana fina e translúcida com manchas rosas amareladas em forma de vírgula além de pequenas regiões edematosas. Em 60% das placentas foram encontradas áreas arredondadas, calcificadas e de cor amarelada correspondentes ao hipomane (CARLUCCIO et al., 2008).

O peso total das membranas fetais de jumentas da raça Martina Franca foi, em média, de 2.3 kg. Verificou-se semelhança na relação entre o peso do recém-nascido e da mãe, tanto em jumentas dessa raça, quanto em éguas, cujos valores são de 9,4% e  9,3%, respectivamente; quanto a relação entre o peso da placenta e o peso do recémnascido, esta é de 12% para a jumenta e 11% para a égua, apesar da gestação da  jumenta ser mais longa e o desenvolvimento de seus vilos placentários ser maior.

Esses achados sugerem que a unidade concepto/placenta poderia ser menos eficiente em jumenta quando comparada com a égua, sendo necessário maior tempo de gestação para o completo desenvolvimento do feto (CARLUCCIO et al., 2008).

 
Histologicamente, a placenta da jumenta da raça Martina Franca é caracterizada por um grande número de vilos nos cornos uterinos e principalmente no corpo do utero. O complexo desenvolvimento dos vilos placentários nas jumentas pode estar relacionado com o longo período de gestação desses animais (CARLUCCIO et al., 2008).


A placenta da jumenta da raça Martina Franca e da égua quando observadas à microscopia de luz, revelam-se estruturalmente similares. Os vilos são organizados em microcotilédones difusos sobre toda a face do alantocórion. A placentação é não invasiva e classificada como sendo epiteliocorial. A interdigitação feto-maternal na jumenta consiste em distintas ramificações de vilos e criptas que formam os microplacentônios (CARLUCCIO et al., 2008).


Ao observar histologicamente a placenta da jumenta, (SABER et al., 2008) verificaram a interdigitação do microcotilédone coriônico com a parte microcaruncular materna, formando o microplacentônio (microplacentoma). Na base do microcotilédone observaram ramos de arteríolas e vênulas, vasos estes que também foram observados nos ramos dos vilos intermediados por trofoblasto. Circundando o tecido fetal encontrava-se epitélio materno apoiado em tecido conjuntivo.


À microscopia eletrônica de varredura da placenta a termo da égua verificou-se que as microcarúnculas, apresentavam-se como agrupamentos de formações compactas. Os limites endometriais entre as microcarúnculas mostravam-se estreitos, e, nas bases microcarunculares muitas aberturas glandulares foram verificadas. As criptas exibiam modelo de ramificação tubular radiada que se direcionavam do lúmen uterino em direção ao tecido conjuntivo que circundava as microcarúnculas, as quais apresentavam formato arredondado que apresentavam modificações quanto a forma, durante o período gestacional (MCDONALD et al., 2000).


Ultra estruturalmente, à microscopia eletrônica de varredura, o tecido epitelial materno apresentava aparência delgada em comparação ao diâmetro amplo, tortuoso e irregular dos ramos das criptas. Analisando a superfície miometrial verificava-se presença do tecido conjuntivo separando as microcarúnculas (MCDONALD et al., 2000).

 
O microcotilédone fetal foi caracterizado por sua altura e pela densidade dos vilos, embora alguns vilos apresentavam ramificações longas, outros poucas ramificações e, em placentas no terço final de gestação, a aparência dos vilos assemelhava-se a do período inicial de prenhes (MCDONALD et al., 2000).

III. MATERIAL E MÉTODOS
As jumentas utilizadas neste experimento permaneceram instaladas na fazenda Ipê, município de Alfredo de Castilho, estado de São Paulo.

A alimentação desses animais consistiu de pasto formado com capim Massai consorciados com estilosantes. Receberam água de poço semi-profundo, via caixas plásticas. São mineralizados com misturas específicas para equinos onde a relação cálcio e fósforo é de duas partes para uma (Ca:P – 2:1).


Utilizaram-se onze fêmeas asininas, das quais colheram-se a placenta, após sua eliminação natural e total, no momento da parição a termo, com tempo de gestação até 363 dias.

 
Uma dessas onze fêmeas teve a gestação acompanhada por duas vezes.

Assim, na primeira delas realizou-se operação cesariana mediante o seguinte protocolo:


A fêmea em fase final de gestação foi preparada para a cirurgia de forma
tradicional, ou seja, foi instituído jejum alimentar e hídrico de 24 e 12 horas respectivamente, após o jejum realizou-se a primeira etapa que consiste na tranquilização do animal mediante administração de xilazina a 1,0% na dosagem de 1,1 mg por quilograma de peso corpóreo, por via intravenosa e após 5 minutos efetuou-se a segunda etapa que consistiu na aplicação de éter gliceril guaiacol (EGG), na dosagem de 10g a cada 100 quilogramas de peso corporal, associado ao midazolan na dosagem de 0,1 mg por quilograma de peso corpóreo, ambos diluídos em 500 mL de soro glicosado a 5%.


Após administração da segunda etapa foi feita indução com cetamina a 10%, na dosagem de 2,0 mg por quilograma de peso corporal por via intravenosa e em seguida, manutenção anestésica com halotano a volume 3%. Ato contínuo procedeu-se a tricotomia da região abdominal, antissepsia e laparotomia por via pré-retroumbilical na linha mediana de forma convencional. Logo após o útero gestante foi exposto e realizou-se a histerotomia com consequente retirada do feto, além da colheita de segmento da interação materno-fetal para análise. Parte dos fragmentos da interação materno-fetal colhidos foram fixados para posterior processamento usual em histologia e, outra parte, fixada e processada para análise à microscopia eletrônica de varredura.


A histerorrafia foi realizada em dois planos utilizando categute cromado número 2 e com sutura de Schimiedem seguida da Cushing. A laparorrafia e a dermorrafia foram feitas com fios inabsorvíveis de nylon. Os cuidados pós operatórios foram diários e constaram de limpeza da ferida cirúrgica com solução fisiológica e iodo povidine, além de antibioticoterapia por sete dias, mediante administração de penicilina na dosagem de 20.000 UI por quilograma de peso corporal.


A cirurgia foi realizada no Hospital Veterinário “Governador Laudo Natel” da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP e lá permaneceu por 48 horas após a cirurgia.

Após seu restabelecimento, essa fêmea foi inseminada e teve sua gestação monitorada até o momento da parição, ocasião em que ocorreu parto normal e liberação da placenta que foi colhida na íntegra, para análise.


Em todas as onze placentas, inicialmente foram observados os seguintes parâmetros: peso, integridade macroscópica, espessura e sanidade de cada uma, individualmente.

Fragmentos placentários foram colhidos e, para o estudo histológico, juntamente com alguns segmentos da interação materno fetal foram fixados em solução de Bouin e, posteriormente, incluídos em paraplast (Histosec® - Merck) mediante realização de rotina histológica convencional seguida da microtomia em micrótomo automático (Leica - RM2155), com auxílio de navalhas descartáveis. Cortes de cinco micrômetros foram corados em Hematoxilina e Eosina (HE) e Tricrômio de Masson (TM) e azul de toluidina de acordo com as técnicas descritas por TOLOSA et al. (2003) e JUNQUEIRA & CARNEIRO (2004).

As preparações histológicas foram analisadas em fotomicroscópio (Leica, DM5000 B) ao qual está acoplada a câmera Leica DFC300FX pela qual capturaram-se algumas imagens para a documentação. Todos os procedimentos foram efetuados no Setor de Microscopia do Laboratório de Anatomia do Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Câmpus de Jaboticabal, UNESP.


Para o estudo ultraestrutural, seguindo metodologia estabelecida pelo
Laboratório de Microscopia Eletrônica da FCAV/UNESP, as amostras colhidas, isto é, alguns fragmentos placentários e da interação materno-fetal foram fixados em solução de glutaraldeído a 2,5% em tampão fosfato (0,1M, pH 7,4) por 48 horas, lavadas em tampão fosfato, tratadas com ósmio a 1% , lavadas novamente em tampão fosfato, desidratadas em série crescente de alcoóis (30 a 100%), durante pelo menos 20 min cada etapa, secas ao ponto crítico no aparelho EMS® 850, metalizadas com átomos de ouro em aparelho DESK II ® (DESK II DETON VACCUN NJ, EUA) e examinadas ao microscópio eletrônico de varredura JEOL ® (JEOL® -JSM 5410 Tokyo-Japão), operando com feixe de elétrons de 15 keV, onde, alguns espécimes foram documentados.

IV. RESULTADOS
IV.1. Aspectos macroscópicos das placentas de jumentas adultas da raça Pêga Na análise macroscópica das placentas das jumentas verificou-se que o arranjo das membranas fetais era do tipo córion-alantóide, o córion apóia-se no endométrio uterino com exceção de uma pequena área denominada estrela cervical. Os microcotilédones formam-se em toda a área de interação com o endométrio caracterizando uma placentação difusa. O componente coriônico dos microcotilédones são os vilos coriônicos que aparecem como um tecido aveludado e avermelhado, caracterizando a face externa da membrana córion-alantóide. A face alantóica, que é a face interna dessa membrana é lisa de coloração azulada onde se evidenciavam os vasos sanguíneos fetais. O amniôn apresenta-se como uma membrana fina translúcida.


Em todas as peças examinadas verificou-se uma estrutura sólida irregular de cor marrom, o hipomane, mergulhada no líquido alantóico (Figuras 1 e 2).

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Também no momento do parto foram registrados a idade, peso e período de gestação de cada uma das jumentas estudadas, bem como o peso e o sexo dos neonatos, além do peso das respectivas placentas (Tabela 1).

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A equivalência percentual entre as médias dos pesos das jumentas, dos neonatos e das placentas estão registrados na Tabela 2.

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IV.2. Aspectos microscópicos das placentas de jumentas adultas da
raça Pêga


A placenta da jumenta é classificada como difusa, pois caracteriza-se pela ligação entre a membrana córion-alantóide e o endométrio por meio dos vilos coriônicos que se interdigitam com as criptas endometriais, formando estruturas de distribuição difusa denominadas microplacentônios (Figuras 3 e 4).

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Ao microscópio de luz constatou-se que na jumenta, a interação materno-fetal, no momento da parição apresentava a porção fetal mais clara com a coloração de hematoxilina eosina, caracterizando os tufos vilosos que são formados pelos vilos e a porção materna, mais escura delimitando as criptas ou septos (Figura 5).

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Entre os microplacentônios estão as aréolas, estruturas que se compõem de uma parte fetal constituída de células trofoblásticas colunares e de outra materna, sendo que nesta, abrem-se as glândulas endometriais. As porções fetal e materna da aréola estão separadas pela cavidade areolar onde as secreções das glândulas endometriais são depositadas e se acumulam (Figura 6).

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Analisando-se detalhadamente a interação materno-fetal na placenta a termo de jumenta adulta da raça Pêga, constata-se que circundando o tecido fetal encontra-se o epitélio materno apoiado em tecido conjuntivo, ou seja, ocorre a interdigitação do mesênquima, onde estão os vasos fetais, com a porção materna, que se constitui pelo epitélio e estroma endometrial, local em que se situam as glândulas endometriais e os vasos maternos (Figuras 7 e 8).

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Ao se analisar a membrana córion-alantóide, da porção referente ao corno uterino prenhe e não prenhe, isoladamente, verificou-se que estas estruturas, apresentavam-se semelhantes, com características de córion do tipo viloso, onde os vilos organizavam-se em tufos, formando os microcotilédones entre as aréolas.

À microscopia de luz observou-se que os vilos apresentavam estroma de tecido conjuntivo, as células trofoblásticas apresentam-se com formato variado, verifica-se epitélio cúbico, pseudoestratificado. A vascularização superficial é moderada e intensa no seu interior (Figura 9).

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IV.3. Microscopia Eletrônica de Varredura da placenta (fetal) e da
interação materno-fetal de gestação a termo de jumentas adultas da raça Pêga.

 
À microscopia eletrônica de varredura verificou-se na superfície de corte
transversal da região de interação materno-fetal da gestação a termo de jumenta da raça Pêga, a intrincada interdigitação dos vilos fetais com as finas estruturas das carúnculas maternas (criptas maternas) formando os microplacentônios. Essas formações são circundados por tecido conjuntivo e apresentam-se separadas por áreas referentes às aréolas. Constatou-se ainda a presença de glândulas distribuídas no estroma endometrial (Figura 10).

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Verificou-se que a face externa ou materna da membrana córion-alantóide é coberta por tufos vilosos formados pelos vilos fetais intensamente ramificados (Figura 11)

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V. DISCUSSÃO
Analisando a placenta da jumenta adulta da raça Pêga observou-se a presença do tecido fetal justapondo-se ao tecido materno, além de intensa vascularização placentária e assim considerou-se, analogamente a WIMSATT (1962), avaliar a palavra placenta como uma aposição funcional entre os tecidos maternos e fetais.


Nessas jumentas a estruturação dos tecidos maternos e fetais caracteriza sua placenta como córion-alantoide, da mesma forma que ocorre nos equinos e carnívoros (SCHWARZE E SCHRÖDER, 1970; ALMEIDA, 1999; ABD ELNAEIM et al.2006; MOORE, & PERSAUD, 2008).

Pôde-se verificar ainda, que na placenta das jumentas Pêga, a composição dos tecidos maternos e fetais determinava uma junção focalizada, onde as áreas vilosas do córion-alantóide ligavam-se ao endométrio de forma difusa, constituindo os microplacentônios (microplacentomas); dessa forma, classifica-se a placenta desses animais como difusa, tal qual a dos equinos e suínos ((STRAHL, 1906 ; GROSSER, 1927, WIMSATT, 1962; SCHWARZE E SCHRÖDER, 1970; RAMSEY, 1982; NODEN & DE LAHUNTA ,1990; LEISER E KAUFMANN, 1994; LEME DOS SANTOS, 1996; EURELL, 2004; HAFEZ, 2004; ABD ELNAEIM et al., 2006) e também da jumenta Eastern Kiang (NOWAK , 1999) e da jumenta selvagem da Somália (BENIRSCHKE, 2004).


Entretanto, não se verificou na placenta da jumenta grandes espaços de córion liso, ou apenas pequenas distâncias entre as vilosidades placentárias conforme relatos de BENIRSCHKE (2004) para a jumenta Eastern Kiang e de ABD ELNAEIM et al. (2006) para a placenta a termo de éguas jovens primíparas. Na jumenta Pêga ocorre apenas uma pequena área avilosa, denominada estrela cervical, da mesma forma que se observa na placenta a termo de éguas (GINTHER, 1992).


Macroscopicamente, a face córion-alantóide (face materna) da placenta da jumenta Pêga apresentava-se com aspecto aveludado e coloração avermelhada; tais observações também foram exaradas por CARLUCCIO et al. (2008) em estudo sobre a morfologia da placenta a termo de jumentas da raça Martina Franca; provavelmente, a presença dos vilos coriônicos determinava esse aspecto aveludado (CARLUCCIO et al., 2008).

Em todas as peças ora examinadas constatou-se a presença de hipomanes mergulhados no líquido alantóico, como relatado para os equídeos(WHITWELL & JEFFCOTT, 1975) e observado na jumenta selvagem da Somália (BENIRSCHKE, 2004) e na jumenta da raça Martina Franca (CARLUCCIO et al., 2008).


Na jumenta da raça Pêga, o alantocórion correspondente à face interna ou fetal do córion e apresentava-se como uma membrana lisa de coloração azulada onde se evidenciavam os vasos sanguíneos fetais à semelhança das observações de BENIRSCHKE (2004) que ao descrever as membranas fetais da jumenta selvagem da Somália afirmou que a membrana alantóica continha grande número de vasos sangüíneos.


A relação percentual entre as médias dos pesos das jumentas versus neonatos, das jumentas versus placentas e das placentas versus neonatos, na raça Pêga, encontrados nessa oportunidade, assemelham-se aos mesmos valores descritos por CARLUCCIO et al. (2008) para a raça Martina Franca.

Entretanto, CARLUCCIO et al. (2008) aludem ao fato de que a relação entre o peso da placenta e o peso do recém-nascido é de 12% para a jumenta e 11% para a égua, apesar da gestação da jumenta ser mais longa e o desenvolvimento de seus vilos placentários serem maiores, sugerindo que a unidade concepto/placenta poderia ser menos eficiente em jumenta quando comparada com a égua, sendo necessário maior tempo de gestação para o completo desenvolvimento do feto.


Quanto às observações de CARLUCCIO et al. (2008) é imprescindível considerar que entre os mamíferos, a grande gama de atividades placentárias realizamse por meio de um complexo formado por órgãos especializados, os quais se desenvolvem, concorrentemente, em sequência cronológica ou funcional; este padrão varia amplamente nas diferentes espécies, podendo ocorrer a presença de órgãos placentários específicos, funcionalmente ativos por toda, ou só em parte da gestação e que também suas funções podem ser alteradas no decorrer da prenhez, concluindo-se que estas e outras permutações são responsáveis pela incrível complexidade anatômica e fisiológica da placenta entre os mamíferos (WIMSATT, 1962).


Ao microscópio de luz constatou-se que na interação materno-fetal de gestação a termo de jumenta adulta da raça Pêga, a interdigitação dos vilos coriônicos (fetais) com as criptas endometriais (maternas) ocorre sem que haja a invasão do útero pelo trofoblasto, comprovando que para essa espécie, a placentação é não invasiva, sendo classificada, segundo LEISER & KAUFMANN (1994), como do tipo epiteliocorial; o que também foi observado, para a égua (RAMSEY, 1982), para a jumenta Eastern Kiang (NOWAK, 1999), para a jumenta selvagem da Somália (BENIRSCHKE, 2004), para a jumenta da raça Martina Franca (CARLUCCIO et al. 2008), e para a placenta da jumenta de raça indeterminada (SABER et al.,2008).


Mais detalhadamente, à microscopia de luz, verificou-se que os vilos coriônicos determinam os tufos vilosos, os quais se interdigitam às criptas maternas formando os microplacentônios (microplacentomas) entre as áreas areolares (RAMSEY, 1982), que correspondem ao local onde se abrem as glândulas endometriais, cujas secreções preenchem o espaço areolar, sob a arcada fetal - elevações do trofoblasto (GINTER, 1992; EURELL, 2004). Essas observações corroboram às descrições de SABER et al. (2008) que ao observarem a ultraestrutura e a microscopia de luz do sistema vascular placentário na jumenta sem raça determinada, mencionaram a presença da aréola, estrutura especializada que consiste de uma parte fetal (alantocórion) e uma parte materna, incluindo a abertura da glândula uterina, sendo essas duas partes separadas pela cavidade areolar.


Ainda, da mesma forma que SABER et al. (2008) verificaram para jumentas de raça não especificada, também se observou na placenta da jumenta da raça Pêga ramos de arteríolas e vênulas na base do microcotilédone e nos ramos dos vilos, sendo esses vasos entremeados por trofoblasto. Circundando o tecido fetal, encontrava-se epitélio materno apoiado em tecido conjuntivo. Analisando a placenta à termo da jumenta da raça Pêga à microscopia eletrônica de varredura, verificou-se minuciosamente a organização das microcarúnculas, que se apresentavam agrupadas determinando formações compactas, as quais estavam circundadas e separadas por tecido conjuntivo, da mesma forma que MCDONALD et al. (2000) descreveram para a placenta a termo da égua. Enfim, mediante as observações ora verificadas para a jumenta da raça Pêga, pode-se concordar com as colocações de STEVEN (1982); LEISER & KAUFMANN, (1994); WOODING E FLINT (1994); ALLEN E SHORT (1997) e ABD-ELNAEIM et al. (2006), quando afirmaram que a placenta de éguas e jumentas são estruturalmente semelhantes, sendo consideradas como difusa, epiteliocorial e microcotiledonária.


Embora a estrutura das placentas de égua e jumentas se assemelhem muito, notam-se entre essas duas espécies diferenças quanto ao tempo de gestação, peso da placenta e peso dos neonatos fatos que exigem estudos mais específicos e detalhados, principalmente ao se atentar às conclusões de LEISER e KAUFMANN (1994) de quão extraordinária é a variabilidade de estruturas placentárias desenvolvidas durante a evolução, nas diferentes espécies de mamíferos para cumprir sua meta principal, isto é, as trocas materno-fetais.

VI. CONCLUSÕES
Mediante os resultados obtidos e a forma em que foi desenvolvida esta pesquisa pode-se concluir que:
A placenta da jumenta da raça Pêga é do tipo córion-alantóide;
A placenta da jumenta da raça Pêga é classificada como difusa e epiteliocorial;
Nos jumentos da raça Pêga, a relação percentual do peso da placenta ao peso da mãe, do peso do neonato ao peso da mãe e do peso da placenta ao peso do neonato foi respectivamente, de: 1,10%, 8,36% e 13,18%.
Na jumenta ocorre pequena área avilosa, denominada estrela cervical.
Presença de hipomanes em todas as placentas.
Presença de áreas areolares onde se abrem as glândulas endometriais.
A placenta da égua e da jumenta são estruturalmente semelhantes.

 

Fonte: Carmen Zilda Pereira de Toledo, http://www.fcav.unesp.br/download/pgtrabs/cir/m/2775.pdf