Bem Vindo ao Blog do Pêga!

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Existe muita literatura sobre cavalos, mas poucos escrevem sobre jumentos e muares. Este é um espaço para postar artigos, informações e fotos sobre esses fantásticos animais. Estamos sempre a procura de novo material, ajude a transformar este blog na maior enciclopédia de jumentos e muares da história! Caso alguém queira colaborar com histórias, artigos, fotos, informações, etc ... entre em contato conosco: fazendasnoca@uol.com.br

sexta-feira, 21 de março de 2014

Depoimento - Zezão

 

Fui achar o Zezão na periferia de Jussara, noroeste de Goiânia. Eu tinha entrevistado o Laudicione no dia anterior e este se prontificara a me levar na casa daquele que seria um dos mais velhos comissários de boiada que eu encontrei (além de seu Alcides e Zé da Neta). Zezão é de 7 de julho de 1926 e está com 81 anos completos. Conversamos durante boa parte da manhã de sábado, nublada e fresca, um contraponto ao dia anterior, quente e abafado. Zezão se animou com a entrevista, nos recebeu muito bem e se mostrou perspicaz e brincalhão. Mostrou-me muitas fotos antigas e contou um pouco de sua história para o Fotomemoria:

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- Zezão, diz aí o seu nome, onde nasceu, eu vou anotando aqui ...
- Meu nome é José Alves Rodrigues e eu nasci em Quirinópolis (sudoeste de Goiás) em 1926.
- Ficou por lá quanto tempo ?
- Morei lá até os 14 anos ... depois mudei pra Jataí (sudoeste de Goiás) e comecei a viajar com Tonicão Borges – o sr. conhece ele ?
- Não, não conheço, mas já ouvi falar dele lá em Jataí.
- Pois é, eu trabalhei uns 10 anos com ele, fazia viagem pra São Paulo e Mato Grosso ... naquela época não tinha estrada, era só no cerrado a viagem ...
- E as boiadas já eram grandes, uns 1000 bois ?
- É, tinha até de 1200, 1300 bois.
- Quanto tempo levava pelo cerrado, até São Paulo ?
- 40 marchas.
- E o trajeto, era qual ?
- A gente ia de Jataí pra Cassilândia, depois pra Aparecida do Taboado (ambas no atual MS), ali atravessava de balsa pra São Paulo, o dono da balsa era o Semi Rodrigues ... aí a gente ia beirando o rio até Andradina (rio Paraná), em São Paulo. Fiquei 10 anos assim ...
- E depois desse tempo ?
- Ah, eu casei pela segunda vez em 1953 e ...
- Já tinha então casado mais cedo ?
- É, meu primeiro casamento foi em 1941 em Quirinópolis ...
- Aí você casou de novo em 1953 ...
- Casei e fui trabalhar numa fazenda em Jataí, onde fiquei mais 7 anos. Em 1962 vim para Inhumas (cidade próxima e ao norte de Goiânia).
- Então você ficou muito tempo afastado da estrada, né ? E por que veio para Inhumas ?
- Eu fiz uma arte em Jataí ... aí tive que sair de lá ...
(Pausa)
- E você pode falar que arte foi essa ?
- Não, não posso falar não.

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- Em Inhumas, então, recomeçou a viajar ?
- Não, eu fui trabalhar em fazenda, com o Zé Palmeira. Aí mudei pra Presidente Prudente (SP) em 1968, fui morar lá pra trabalhar pro mesmo Zé Palmeira. Eu recebia o gado que ia de Goiás pra lá e levava para outras fazendas, na região de São Paulo mesmo. Fiquei lá até 72, quando voltei pra Goiás, em Inhumas de novo. Aí que eu fui viajar de comissário. Comprei minha comitiva e comecei a viajar ... morava em Inhumas, pegava gado no interior de Goiás e levava pro Pará, para São Paulo.
- E quanto tempo você ficou morando em Inhumas e viajando com sua comitiva ?
- Em 75 eu mudei pro Pará ... fui mexer com fazenda. Fiquei até 82. Quando voltei pra Inhumas comprei outra comitiva, outra tropa e recomecei ... e lembro que a primeira viagem dessa época foi pra Paulo de Farias, junto de Riolandia ...
- Zezão, qual foi a maior viagem que você já fez ?
- Foi pro Pará, não lembro em que ano ... mas foram 142 dias de viagem ... eu levava 10 peões ...
- 142 dias é muita coisa ! E 10 peões para que ?
- Porque era boiada grande, e além dos premereiros tinha os segundeiros, antes dos chaveeiros ...
- É, boiada muito grande, no estirão precisa de mais gente nos flancos mesmo ... E quando você veio morar em Jussara ?
- Em 96. Aí fiquei viajando até 2005. Parei, aposentei.

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- Em todos esses anos, houve alguma viagem muito boa, especial ?
- Todas as viagens eram boas ...Essa do Pará ... essa do Alfredo Gibran que eu levei 1723 bois, entreguei 1722. Só lá no Taboado (MS) que um boi quebrou a perna. Foram 106 marchas ... nunca vi um trem bom daquele jeito.
- Lá pro Pará ?!
- Não, foi lá pro Alfredo Gibran, em São Paulo.
- Foram 1723 bois ! Levava cortada (dividida em grupos) ou levava inteira ?
- Durante o dia eu levava ela cortada.
- E aí tinha duas comitivas, como é que fazia ?
- Não, era uma só. Soltava uma (parte) na frente, ela comia o dia inteiro, ia pro curral de corda ... depois soltava uns 700, passava na guia dela, ia comendo ... era tudo aberto, né ? Só dormia junto no curral.
- E ia engordando na viagem, né ?
- (ignora a pergunta) Seu Gibran ficou tão admirado que ele até me deu uma mula de presente ... já morreu.
- E viagem ruim ?
- Um dia dei um tiro num caboclo, ele estava numa camionete, depois disso a polícia me chamou, fui na mula até a delegacia, expliquei tudinho e a delegada me liberou. Era uma camionete cheia de gente, ele me ofendeu, a camionete saiu e eu atirei e acertei justo nele ...
- Viajava armado ?
- Eu só viajava armado. Naquele tempo podia, né ?
- Zezão, você é do tempo do burro cargueiro, quando não tinha carroça nas comitivas ...
- Eu viajei com cargueiro até 82, depois só carroça. Mas eu prefiro viajar de cargueiro ...
Zezão tem 4 filhos. Uma delas, Ana Rosa, sempre que podia, ia até onde o pai estava e viajava alguns dias na comitiva, montada em lombo de burro. Hoje aposentado, Zezão mantém o bom humor e cuida de uma chácara próxima ao bairro em vive, na periferia de Jussara.
Jussara,GO, outubro de 2007.

Fonte: Foto Memória

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